sexta-feira, 2 de outubro de 2009

O cangalheiro

Sempre que alguém se fina, lá vem aquela pergunta sacramental: “Então e agora Sr.Dr., o que é que eu tenho de fazer...?”. A resposta também é sempre a mesma: “Não se preocupe, que a agência funerária trata de tudo, agora só precisa ir descansar”. E realmente este é o único malabarismo a fazer, porque a logística é por vezes complexa e deve ser deixada nas mão de quem sabe. Para além disso, e infelizmente, aos próximos não lhes resta pinga de disposição para sequer pensar em como será a urna...

As funerárias são sempre agentes comerciais míticos e fazem parte do subconsciente de qualquer...mortal. Todos iremos lá ter cabimento! Dizem que quando se passa por um carro funerário, nos devemos agachar para que não nos tirem as medidas! E o melhor é mesmo não arriscar, pelo que recomendo que se encolham sempre que os ultrapassarem ou quando tiverem a má fortuna de se cruzarem com um.

As agências funerárias são um bem precioso à humanidade, porque tratam de uma questão de saúde pública, evitam o espalhanço de doenças, e principalmente ocupam-se de uma logística que muitas vezes é dolorosa aos elos próximos.

Geralmente este é um negócio de herança familiar, com todo um saber e conhecimento transmitidos por gerações, e muitas vezes proporcional aos originais nomes comerciais estampados em arco nas montras: “Agência Funerária Irmãos Cadência”; “Agência Funerária Cá Te Espero Pereira”; “Agência Funerária Caixão D´Oiro”, ou até a mais singela “Agência Funerária Levita”, e mesmo a espanhola “Agência Funerária En-Terra”. A maioria deste negócio concentra-se nas imediações dos hospitais, com pequenas lojas, montras pejadas de santos e santas milagreiras, reclames sóbrios, e frases apelativas do tipo: “Descontos ao par”; “Fazemos leasing e abatemos no IRS”; “Tudo incluído, excepto o finado”; e mesmo a vanguardista no conceito “A trabalhar a terra desde 1921...”.

Eu até acho que quem devia comandar os destinos deste país eram os cangalheiros. São um exemplo de organização, de respeito pelo próximo, de apresentação, educação e sobriedade, que tanto agradecemos naquelas circunstâncias. O cangalheiro é amigo, compincha e solícito. Ajuda o cliente a escolher a madeira exótica do caixão, dá a opção de caixão tuning, caixão barbie, caixão caneca, ou até mini-caixotinhos com divisórias e gavetinhas para a guarda dos seus pertences.

Podemos também afirmar, que a língua portuguesa não foi muito generosa na adequação da gramática e fonética aos cangalheiros. Todos sabemos que o calceteiro calceta, o advogado advoga, o condutor conduz, e o massagista massaja. Imaginando, por exemplo, uma reunião de indivíduos num curso de computador sobre a perspectiva do utilizador, onde todos se apresentam, confabulámos a resposta do cangalheiro: “Boa tarde, o meu nome é Alfredo, tenho 32 anos, venho de corroios, como chouriços, e Cangalho”. Para além disso, se lhe deixarmos cair a letra “n”, fica “cagalho”, o que pode parecer um fanhoso, a feiosamente insultar o próximo, no uso de um vernáculo não muito próprio!

Aqui há uns tempos, houve o décimo segundo Congresso Internacional de Cangalheiros, realizado na Finlândia, e onde se debateram assuntos tão importantes como a introdução de música nos féretros aquando dos cortejos (inspiração baiana?), ou a realização de missas gravadas em vários dialectos africanos. A teoria do fole foi o argumento decisivo para pôr fim a esta contenda, e o Japão foi o único país a aprovar a moção, pois já possuía a tecnologia desde há vários anos.
Foi também aprovada a moção de censura à Índia, que teima em embrulhar os finados num lençol e lançá-los aos rio Ganges, e um voto de louvor a Salvador da Baía, onde se festejam os quinados, com vestes brancas e muita alegria candongueira.
Os américas, conseguiram por sua vez, ganhar o prémio inovação, pelas futuristas alterações ao tradicional papel da pequena agência funerária de bairro. Introduziram os velórios por vídeo-conferência, os caterings pré e pós-evento, a manutenção eterna da página facebook, e ainda promoções ocasionais, como a oferta de funeral completo aos familiares directos, no caso de óbito nas primeiras 24h do acontecimento.
Todos estes pressupostos malucos, servem para exorcizar o fim e dar vivas aos princípios, relativizando aquilo que é vida, e aceitando a sua contingência final com a mesma alegria despreocupada e banal.
Só um médico podia falar com esta ligeireza séria...

5 comentários:

  1. Não é qualquer médico que pode falar assim...
    A frieza é inerente à sua condição mas esse sentido de humor tão refinado e tão inteligente só podia mesmo vir de alguém tão fantástico que por acaso escolhi para Pai do meu filho!!!
    Está fantástico.
    Bjs.
    Eu.

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  2. E Pumba! És o maior!
    Despacha-te!
    JN

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  3. Desde criança que sempre afirmavas ser "um génio incompreendido". Com o tempo foste-te tornando "um géniozinho" deveras conhecido para quem tem o prazer de poder partilhar a amizade.
    Bjs.
    274-A 2º

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