terça-feira, 22 de dezembro de 2015

A Conquista!

A primeira vez que pisamos o palco, consegui antever aquela plateia repleta de gente anónima, conhecedora e com os olhos atentos em nós! Confesso que é um pensamento intimidante e perturbador de certa forma. A sala era enorme, e assim em bruto, despida de público que nos avaliasse, pude apreciar as linhas sóbrias e elegantes que lhe suavizavam a imponência.


Com os microfones dispostos em meia-lua, o som de retorno estava muito baixo, o micro da percussão estava a entrar no geral, o feedback era frequente, e a captação das vozes não se apanhava. É esta a utilidade dos check-sounds, porque ao fim de meia hora e muitas trocas e acertos na mesa de mistura lá no fundo da sala, a equipa técnica conseguiu equalizar um som harmonioso e equilibrado.


Este espectáculo que íamos apresentar já levava alguns meses de rodagem, e por isso a maioria de nós se sentia confortável na execução e interiorização do ritmo e sensibilidade das músicas. Um espectáculo dedicado ao mar e às suas gentes, que no fundo sempre foram as nossas gentes. Um hino ao nosso cancioneiro e um projecto que nos obrigava a ser melhores que a vez anterior.


Mas esta apresentação não teria nada de especial a não ser pelo facto de ser na metrópole do norte. Não sou de bairrismos fanáticos, aliás, nem sequer sou de Lisboa, mas todos somos profundos conhecedores da velha rivalidade entre estas duas capitais. Por isso, virmos de Lisboa e apresentarmo-nos pela primeira vez no Coliseu do Porto, era algo que nos dava um nervoso miudinho e nos criava a real expectativa de que não podíamos falhar.


Durante o resto da tarde conseguimos ocupar uma das salas de ensaio e passamos ali umas belas horas de afincado trabalho. Sob a batuta dos obsessivos ensaiadores, repetíamos as partes mais frágeis, afinávamos detalhes de última hora, sincronizávamos as vozes até à exaustão, com muita gargalhada e boa disposição à mistura como válvula de escape. Acima de tudo era o peso da responsabilidade e determinação em fazer boa figura!


Com a voz frágil que tenho, não arrisquei a beber cerveja durante todo o dia, pois os frios podem estancar a voz. Sendo um dos solistas, que ainda por cima teria a responsabilidade de abrir o espectáculo, chegou-me ao ouvido o rumor que um cálice de Brandymel ajudaria nestas performances. Usei da fama e bebi mais um ou dois, para que o resultado do remédio fosse maior...


O jantar do dia foi precedido por uma pausa, aproveitada para beber um café no lindíssimo Majestic. De facto o Porto sempre me encantou, com os seus segredos, com os seus tesouros bem conservados, com a sua tradição, mas sobretudo com tudo aquilo que de mais valor tem: o seu povo! Gente acolhedora, sincera, amiga e com uma natureza que nos inspira confiança. Gosto sobretudo da verdade que emanam e da integridade a todos os níveis. Gosto, sim senhor!


As ruas circundantes estavam a ficar intransitáveis à medida que se aproximava a hora do festival, com lotação esgotada já há muito tempo. Nestes eventos imbuímo-nos de um espírito de festa tão abrangente que de forma natural se estende ao sentir vibrante da cidade, sob a batuta vigilante da teoria do fole.


Com este primor de ensaios, claro que perdemos o jantar da cantina e acabamos por comer uma francesinha mesmo em frente ao coliseu, fruindo o movimento e a azáfama natalícia da rua. Soube tão bem, que rematei com um Brandymel aquecido (a ver se maximizava as suas propriedades terapêuticas), e de volta aos camarins para um último ensaio antes de entrar em palco.


Agora sim é que entrava o nervoso miudinho!
Os semblantes estavam mais sérios, e mesmo que tentassem disfarçar não conseguiam esconder uma certa preocupação e tensão.


Tinha sido o intervalo e a tuna que abria a segunda parte já estava em palco.


Subimos as escadas posicionando-nos no backstage, para que assim que acabasse o grupo anterior entrássemos nós. Aquela espera é um momento de ansiedade e concentração, tendo como hábito andar de um lado para o outro, pedindo repetidamente a uma guitarra ou ao acordeão que me liberte o tom da música. Isto de entrar "a seco" e sem rede, pode parecer, mas não é fácil…


Já está! A tuna anterior acabou a actuação e cruza-se connosco de feição descontraída e aliviada por nos passar o testemunho, pronta para festejar em grande. Que inveja!


Enquanto o pano está em baixo, tomamos as nossas posições em frente aos microfones. Quase um por voz, e um por instrumento. Fico posicionado entre o acordeão e a percussão, ajustando e alinhando o micro, mas nesta altura já só desejo é entrar em acção! Cada um traça a sua capa evitando derrubar o sistema de som montado, enquanto do outro lado da cortina se desenrola um pequeno sketch humorístico, dando-nos tempo a posicionar correctamente. Falam de um qualquer momento futebolístico norte-sul...


Bom! Tudo a postos e umas últimas palavras do psicólogo de serviço: "Sorriam!", "Força pessoal", "Dicção, e cantem à homem!”, gerando em resposta uma onda de comentários murmurados e palavrões à mistura..


Oiço então os apresentadores num coro retumbante:
-"Senhoras e senhores fiquem então com...A Estudantina Universitária de Lisboa!", ao mesmo tempo que o pano subia e os holofotes nos iluminavam o rosto esvaindo-se engolidos pelo negro das batinas.


Nesse preciso instante e num ímpeto de animosidade, uma chuva de insultos, impropérios e duríssimas palavras que em nada lisonjeavam as nossas mães ou mulheres, encheram a sala num basqueiro verdadeiramente ensurdecedor. Como se estivéssemos num estádio de futebol e entrasse a equipa mais arqui-rival do clube da casa. Afinal a rivalidade Lisboa-Porto tinha sido transposta para esta arena e teríamos de a enfrentar!


Confesso que estremeci, e ao rodar a cabeça pude ver vários sorrisos amarelos estampados em caras de pânico! Em alguns conseguia ler nos olhos e adivinhar entre dentes o pedido "Começa a cantar car@€;)5&@!0...".


O público continuava a apupar ruidosamente, mas permanecemos firmes e em muda posição durante uns infindáveis 4-5 minutos! O Coliseu quase que vinha abaixo...


Não podia desatar a cantar a solo com aquele protesto...


Uma serena calma me invadiu enquanto seguia pelo canto do olho os tiques nervosos de alguns que eu já conhecia. Não iria começar sem que se calassem, e a certa altura a tuna ficou mais nervosa comigo por não começar, do que propriamente com o coro de assobios....


Finalmente as vozes se foram encolhendo, não sei se pelo cansaço se pela nossa inderrubável afronta, e aí retomei de confiança. Quando o público se calou, olhei de novo para o lado e anuí subtilmente com a cabeça como quem diz: "Vamos a isso!".


Fechei os olhos, respirei fundo e soltei com segurança a primeira estrofe do Infante:
-"Deus quer, o Homem sonha, a obra nasce"...


Nesta altura o silêncio na sala era absoluto, e o coro entrou com um corpo tão compacto quão impressionante. Arrancamos aplausos espontâneos e verdadeiros no fim da música! Estavam rendidos! Ufa!


Numa apresentação sóbria, completa, com exímia execução e cheia de alma, fomos música-a-música ganhando o público e conquistando os seus corações. Boas execuções, força e corpo nas vozes, timings perfeitos e apresentações sóbrias, engrandeceram músicas originais e arranjos lindíssimos. Tudo isto, fez com que no fim de cada música os assobios se tivessem transformado em palmas, e os apupos em bravos! Que reviravolta surpreendente! Que momento!


Quando saímos de palco, os abraços sentidos aliviaram a tensão acumulada naqueles 40 minutos e entrámos em modo descompressão com sensação de missão cumprida.
A Estudantina tinha mostrado todo o seu valor, classe e postura de forma exemplar!


Uma noite memorável!
Um abc


PS: Neste festival arrecadámos os prémios de melhor solista e 1º lugar…J



segunda-feira, 30 de novembro de 2015

A falésia


Naquela montanha nua, o vento cortava o ar como uma fria lâmina atravessando espíritos invisíveis. Uma ou outra árvore polvilhavam a paisagem de verde, nas rochas escuras que se construíam sobrepostas em escarpas abruptas e desamparadas.

Apenas uma casa no topo se destacava pela cintilância e conforto da lareira, que exalava um fumo branco e sereno da chaminé. Lá dentro, Anne murmurava com pesadelos que variavam de intensidade, viajando nos trilhos suspensos da loucura imaginada dos sonhos. Frank dormia placidamente sobre os próprios sonhos que fraca energia lhe sugavam, virando-se devagar na cama para aliviar o peso constante nas articulações.

Ela começou a acordar antes dele, na esperança de não encontrar a realidade igual ao sonho. Passou a levantar-se ainda o sol não existia, e a esgueirar-se da cama como uma luva que se desencaixa da mão, com a viscosidade de um sabonete a fugir das mãos.

Descalça, apenas com a camisa de noite branca vestida, brilhava ao luar esmorecido, e assim permitindo que todas as corujas lhe seguissem o rasto. Deixava a porta encostada porque sabia que ia sempre voltar, mas mesmo que não voltasse, podia um viajante desguarnecido esgueirar-se e sentar-se à lareira à sua espera.
Caminhava pelo caminho inóspito sem olhar para o lado, sem se distrair, sem se entreter com a lama que lhe sujava os pés nem com o vento que lhe empurrava o cabelo para a cara. Uma teoria do fole jazia numa vala à espera de dono.

Ele ficou lá atrás, no aconchego da luva..

Parou na beira do precipício, onde o mar começava e as ondas por vezes batiam tentando subir e apanhar-lhe as pernas para a levar.
Atirou uma garrafa e viu que tempo demorava a estilhaçar-se nas rochas. Contemplou com os seus olhos verdes aquele efeito de desconstrução, e aquele impacto pulverizado em vários fragmentos de sons minúsculos.

Lançou uns talheres que caíram muito rapidamente ao mesmo tempo que davam voltas no ar, numa dança improvisada. Ficou a apreciar o tlim desvanecendo e a faísca do atrito que provocavam com as pedras grandes e imutáveis.

Primeiro olhou-se no espelho penteando a sua imagem antes de a atirar gravada na sua superfície. Demorou a cair mais tempo que os restantes objectos, talvez porque ao rodopiar no ar, reflectisse no caminho aquilo que a vida nos dá: flores, pedras, terra, céu e chão. Vertiginosamente caiu partindo-se em mil bocados estridentes, que por sua vez reflectiram mil imagens diminutas.

Não deu corda ao relógio, mas atirou-o com força para que o tempo acelerasse a queda. Despedaçou-se em parafusos, ponteiros e partes de metal que pensava não existirem, num barulho rouco de oficina de carros velhos. O tempo daquele, parou ali.

Não precisava do seu urso de peluche, que guardava desde a infância. Não era ela que o guardava, mas sim ele que lhe guardava os seus segredos. Respirou fundo, fechou os olhos e lançou-o no abismo imaginando que som faria ao estatelar-se nas rochas. Caiu de braços abertos para abraçar o mundo e quando o encontrou fez um ruído amortecido pela espuma que apenas ela conseguia ouvir.

Assim foi durante o pico da lua, em que lançava objectos e lhes tentava adivinhar o som que faziam ao esmagar-se no fundo daquela negritude que não alcançava ver, apenas ouvir. Lançava tudo aquilo exorcizando os seus medos, ou outros eus, as suas hesitações e frustrações.

Sempre tinha adivinhado o barulho de todos os objectos, como se cada um tivesse uma identidade própria e um som característico e inconfundível. Mas nunca se lançou a si própria. Não imaginava como seria o seu barulho e que ruído faria.
Fechou os olhos e imaginou a atirar-se dali como um peso morto, como uma viagem que atravessasse as nuvens ganhando velocidade na descida. Desamparada mas com uma cheia sensação de liberdade, como se a liberdade pudesse ser cheia, e medida no tempo de uma descida. Uma coisa tão lata com limites e fronteiras não existe.

Imaginava como seria o som do seu corpo a esborrachar-se contra o chão. Um som seco de carne e ossos, que espalharia sangue e talvez um suspiro exalado de dor em milésimos de segundo. Iriam os seus olhos abertos ou fechados quando se desse o impacto? Era essa a dúvida que a atormentava ...

Abriu os olhos e respirou fundo, engolindo o mundo numa golfada revigorante.
Fez o caminho inverso e empurrou a porta que deixou entreaberta. Não estava ninguém à lareira e Frank remexeu os lençóis da cama como se despegasse do sono profundo.
Foi acolhida de novo pela luva reconfortante, com o espírito mais leve, mais aberto, mais receptivo.
Assim que ele acordou, ela sorria docemente como se estivesse à espera.
Livre daquela bagagem que lhe pesava e que jazia no fundo do precipício...


Inspirado na música "Hyperballad"-Björk

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Liberdade



A liberdade é uma dimensão com uma importância espantosa! Uma importância que deveria ser usada e utilizada por todos. Pelo próprio, pelo outro, pela comunidade, pelo povo, pelo mundo. 
Começa por ser um conceito primeiramente individual, e só depois se estende de forma colectiva. Não é para todos, não é fomentada por todos, mas todos a deveriam poder exercer e dela fruir.

Curioso como já de si, algo que não devia possuir amarras, está contido pelos muros da palavra. Se pensarmos numa lógica puramente linguística, sentimos que a palavra liberdade fica truncada e manietada da sua verdadeira abrangência. Se lhe trocarmos as letras ou invertermos a ordem, o significado deixa de existir, a palavra já não existe! Refém da sua existência visual e escrita.

A prisão física é o componente mais ilustrativo da perda de liberdade. O cercearem-nos da liberdade de movimentos, de não podermos extravasar uma zona delimitada é uma condicionante terrível. Como verão o mundo os presidiários, pelas grades de uma janela que os impede de libertar o seu corpo? Esta limitação aos nossos movimentos e a imposição de regras, sem dúvida representa um castigo e uma punição pesada naquelas vidas sentenciadas. Os mesmos muros e as mesmas rotinas que desgastam os corpos, e que por sua vez arrastam as mentes para um caminho de resiliência, mais do que resistência.

Se repararmos nas nossas vidas, reconhecemos que muitas têm a sua liberdade condicionada pelo trabalho, pela família, pelo estado, pela falta de dinheiro, e por muitas outras diversas circunstâncias. Existe na maioria dos casos, uma realidade ou uma conjuntura que nalguma etapa do desenrolar da nossa liberdade, se interpõe e nos obstaculiza o avanço no terreno. Mas a liberdade vai em crescendo, progredindo e somando pequenas liberdades que nos dão até mais autoconfiança. Em última instância e extremando as situações, tudo nos pode condicionar, mas conscientemente não podemos actuar plenamente livres em todas as opções, pois isso nos poderia levar à apologia da anarquia e ao princípio do caos. Estou em crer que todas estas fronteiras que nos condicionam e delimitam a expansão das nossas escolhas, se transformam numa barreira natural ao excesso de liberdade que poderíamos eventualmente tomar. Senão, onde iríamos parar? 
Em crescendo de liberdade corremos o risco de cair na libertinagem...

Haverá algum limite à liberdade, ou ela pode ser infinita...? Em teoria, devíamos sempre reger os nossos princípios por aquilo que pensamos e escolhemos fazer, mas será que isso é o melhor para nós ou para o outro? Será que não colide com nenhum arco de conforto de terceiros?

A verdade é que a liberdade individual e as suas escolhas nunca serão demais, e o verdadeiro limite deve ser aquele que cruza com a independência do outro. Isto é, a minha liberdade de acção é em teoria total quando essa acção não afecta terceiros. Quando não ofende, quando não interfere, quando não influencia negativamente ninguém nem o próprio. Esse deverá ser o limite da nossa liberdade. Deveria ser uma regra básica e para mim constitui-se como um pensamento chave na construção de uma sociedade justa e tolerante. A liberdade é o direito de fazer tudo quanto não prejudique a liberdade dos outros.

Um dos aspectos mais valiosos da liberdade que temos, é a de poder escolher o nosso destino sem condicionalismos, sem interposições, sem preconceitos. Ser livre de traçar o nosso rumo e de fazer as nossas escolhas de vida é de uma riqueza imensa, porque nos faz passar por um exercício importante para a maturidade que é a análise e reflexão. Depois de analisarmos e reflectirmos sobre o que quer que seja, tiramos as nossas conclusões e assumimos os nossos caminhos. Se tivermos a liberdade de poder escolher o melhor, então seremos felizes porque pudemos optar. E a liberdade verdadeira não se compadece de fios ou amarras que lhe tolham o rumo, ou por ventos que a puxem para trás. Mas para termos estas opções temos de estar munidos de instrumentos que nos possam dar a tal liberdade de escolha. A autonomia física, a emocional, a financeira, a laboral, são muito mais determinantes que a independência, porque implicam uma gestão do próprio. Mesmo que dependam de algo ou de alguém, têm implícito um envolvimento e uma aprendizagem em moldes positivos.

No entanto, de nada valeriam todas estas liberdades, se não existisse a mais importante de todas: o pensamento! Aqui a liberdade é infinita, as fronteiras não existem, e a capacidade de produção pode testar os mais diversos modelos e cenários sem qualquer limite. Por isso o pensamento nunca poderá ser preso e será sempre livre de divagar sem paredes invisíveis que lhe borrem o alcance do horizonte. É esse o último reduto do homem. 
Podem prendê-lo atrás de grades, podem tapar-lhe a boca, podem torturá-lo, podem privá-lo de tudo, que o seu pensamento conseguirá gritar mais alto e sobrepor-se a aquilo que lhe querem impor.

Cabe-nos dar o exemplo de uma liberdade sã e contagiante.

Pratiquemos a liberdade e lutemos para que os outros a possam exercer também!

"Find your freedom. Live your life. Free the world" 


Um abraço livre

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A Fuga dos Refugiados


Não é apanágio da teoria do fole andar na vanguarda da notícia e do momento, mas esta crónica foi redigida sobre os acontecimentos, o que só por si já lhe confere algum grau de parcialidade e quiçá menor amadurecimento, mas foi o que saiu...

Falo da questão dos refugiados sírios e iraquianos. Se nos detivermos na imagem do refugiado, ele transporta-nos de imediato a um imaginário distante no tempo e no espaço. Algo que ocorre no quotidiano cíclico de um qualquer país pobre e conturbado, mas que neste momento se encontra nos portões da civilização ocidental, constituindo-se ironicamente como o retorno do boomerang que lançamos às nossas guerras longínquas. 

Não é um problema novo, nem sequer para este velho continente. Basta olharmos para a história, e tudo o que ela nos demonstra, para sabermos que estas migrações por motivos bélicos, políticos, ambientais ou expansionistas irão estar sempre a acontecer.

No entanto, vemos muita indignação, muita raiva, muito sofrimento telepático e muita mobilização até, perante as imagens que todos os dias nos aparecem na televisão.

Causa revolta ver crianças inocentes a chorar, a sofrer pela indefinição do futuro que se estampa naqueles rostos! Causa revolta ver seres humanos acurralados como animais, à espera da esmola de cruzar uma fronteira para um mundo melhor! Causa revolta ver diariamente corpos a boiar e a dar à costa, enquanto jantamos confortavelmente nas nossas casas! Estas pessoas fogem dos horrores da guerra, da morte, da fome, da perseguição, em busca de uma esperança, de uma oportunidade. Apenas uma oportunidade...

Tudo isto causa revolta, mas não causa a revolução necessária!

Não desperta consciências profundas, reflexões ponderadas e uma análise fundamentada sobre um grave problema mundial. Os intelectuais e pensadores recolhem-se numa espécie de autismo selectivo. O jornalismo sensacionalista e bacoco, também não permite que a opinião pública reaja de forma construtiva e pró activa. As redes sociais espalham como uma labareda, tudo quanto é imagem ou "facto" bipolar, extremando cada vez mais facções e alimentando muitos fantasmas desconhecidos e medos acocorados no subconsciente. Os políticos fracos de ideologia e submissos à malha dos barómetros de sondagens, andam à deriva de soluções imediatas e sem plano traçado para um problema que não tem fim. Ainda assim, as instituições são as que respondem de uma forma mais racional e honesta perante tudo, talvez porque tenham menos compromissos de agenda...

A questão síria, iraquiana, líbia, afegã, curda, etc, não apareceu agora! Já existe há muito tempo, e foi despoletada pelo ocidente. 
Pelos nossos governantes, pelos nossos políticos, pelos nossos jornalistas, que teimam em moldar o mundo à sua maneira. Que insistem em brincar aos mapas geopolíticos, como quem mexe peças de um tabuleiro de um jogo de mesa. É dado adquirido que qualquer intervenção por mínima que seja ou qualquer mudança drástica, tem consequências imprevisíveis e causa um efeito bola de neve. As mudanças abruptas nas sociedades têm sempre um risco enorme, sendo potenciais geradoras de desigualdades e conflitos que causam muito sofrimento. 

Condeno evidentemente as ditaduras, mas as tiranias abruptamente cessadas das figuras de Saddam Hussein, de Kadaffi, de Mubarak e mesmo as de Bashar al-Assad(?) terão criado mudanças melhores? Não! Criaram uma tal instabilidade, que culminou numa terra sem lei e sem comando.

Não, também não devemos baixar os braços nem deixar de intervir, mas criativamente tentar estabelecer uma cruzada pacífica e de longo termo para assim gerar rupturas progressivas e adaptativas.

O ser humano é por instinto reactivo, e nunca pró activo, pelo que estas "ondas" de refugiados fazem brotar areias movediças nas relações entre povos. Estamos num perigoso e primitivo caminho de reacender as chamas de xenofobia e discriminação, sendo esta uma batalha que forçosamente tem que ser ganha pelos exemplos positivos que demonstramos.

Dissequemos uma das imagens mais marcantes desta história recente: Alguém se lembra da fotografia do corpo do menino refugiado, inerte na praia? Aylan Kurdi de seu nome. 3 anos de idade...
É uma imagem fortíssima, que não nos deixa palavras nem para a descrever, mas atrevo-me a perguntar: E se a criança não fosse "branca"? E se não tivesse roupas ocidentais como as dos nossos filhos teria o mesmo impacto? E que posição tão frágil, desamparada e de abandono..! E que dizer da simbólica passividade do polícia que não tem o instinto imediato de colher a criança!?E quando a recolhe, não lhe dá "colo", transportando-a como um tabuleiro! E quantos tiveram e continuam a ter o mesmo destino...

É de facto uma foto impactante, marcante, que causa comoção e nos indigna de uma forma incrível pelos sentimentos que gera... Há tantas interpretações e análises subliminares nesta fracção de segundo, que quase já adivinho que seja a foto do ano.

Ninguém pode ficar indiferente a estas tragédias, e acredito que saibamos ser melhores a cada dia que passa e à medida que nos formos apercebendo das necessidades do nosso próximo. É inconcebível que o ocidente não se entenda, que os EUA se mantenham alheados, que os países árabes ricos assobiem para o alto.

Ao mesmo tempo percebo o desnorte e o desespero da Europa! 
Uma Europa que nunca na vida esteve unida, não pode ter a expectativa de se unir em redor de uma causa muito conturbadora. Percebo os medos de receber desconhecidos na nossa casa, mas dêmos-lhes pão e intuiremos dos propósitos. Percebo a incerteza de isto ser aproveitado para um cavalo de Troia, mas temos de monitorar de perto aquele que vem de longe, assim como vigiamos os "nossos". É verdade que os terroristas são uma ameaça real e utilizam-se de qualquer facto ardiloso para lançar a tragédia e o pânico. Percebo a pressão que os sistemas sociais irão ter, mas adequemos a resposta diluindo o problema por todos. Percebo o colapso social e económico a que podemos chegar, se não houver bom senso num acolhimento partilhado e envolvente, em vez de um perigoso acantonamento. Não podemos absorver o mundo inteiro neste espaço, por isso percebo a angústia do desconhecido. São momentos imprevisíveis da história...

Mas como utópico que sou, vejo que a Europa tem agora a oportunidade de envolver o mundo inteiro nesta batalha. A oportunidade de fazer jus à sua designação de "União Europeia", dando um exemplo claro de solidariedade e fraternidade, numa resposta incisiva, rápida e unida no acolhimento. Menos discussão e mais acção!

O segundo enfoque, claramente o mais importante, deve ser feito na origem do problema. Tem de haver uma movimentação no sentido de ajudar a resolver os conflitos e as questões na sua origem, no seu país, na sua zona geográfica. É fundamental ter essa coragem!

O exemplo que sair daqui, terá de servir de jurisprudência a todos os outros conflitos mundiais, e cada foco que surgir deverá ter a mesma resposta. Seja no Médio Oriente, seja em África, seja onde fôr!

Para o bem desta humanidade...


  

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Ginjabol



Nos antigos tempos romanos havia uma aldeia onde o desporto era praticado com afinco, dedicação e muito empenho, mobilizando tudo e todos em torno de uma tradição milenar: o Ginjabol.

Estes embates preparavam-se durante semanas, com estágios parcelares nas melhores adegas do país e idas regulares às missas dos Adventistas para ensaio dos cânticos de claque. Versavam sobre os mais variados temas com títulos sugestivos como “As bolas dum anjo”, “Levado pelo pé, com Jesus eu vou”, “A falta do pecador” e sempre a terminar, o épico “Dia do Apito final”.

No próprio dia do jogo, as forças policiais dispunham-se em bloco em torno das roullotes mais importantes, para permitir a entrada de uma forma ordeira e sóbria no recinto. À polícia montada estava reservado o show erótico, que antigamente era perpetrado pelas manas Romanov e sua caniche da Tasmânia. Toda a festa se montava em redor da praça de touros onde decorria o jogo.

Desde os cuspidores de fogo que eram aproveitados para assar os frangos no espeto, às farturas radioactivas com dupla camada protectora, ao algodão doce com grumos de cevada, às entremeadas de lípidos polinsaturados, e até às bifanas sagradas da porca da Marinela, todos se uniam alegremente ao circo montado. Era curioso constatar que lado a lado conviviam os vendedores de cachecóis, bandeiras, pins, sapatos, verdura, andaimes, chámon e sanitários.

Geralmente era desta aldeia a equipa que defrontava a selecção nacional da Lusália, constituída na altura por jogadores cirróticos e barrigudos com alta agilidade para o jogo mental de cultura védica.

Quando os machos jogadores da selecção entravam em campo com os seus ursinhos de peluche, robe, pijama e rolos no cabelo, eram entusiasticamente recebidos com mousses vegetais, óleos de sebo de girafa, algálias de longa duração, e exfoliantes de casca de tremoço das raras quintas capitalistas e feudais de Corroios.

Dentro do estádio, dum lado do campo posicionavam-se os melhores representantes dos Lusálios, enquanto do outro se colocavam os anões da Beira Baixa. Esta casta conhecida carinhosamente pelos “Beirinhas”, era sempre um adversário aguerrido, famoso pelos seus golpes de cabeça no baixo-ventre quando os ânimos lhes subiam à guelra. Com um centro de gravidade mais baixo, conseguiam muitas vezes passar pelos entrefolhos dos adversários, fintando-os com dribles de ballet ucraniano.

Este jogo original, desenrola-se por tradição numa arena circular com três orifícios na zona central com cerca de 8cm de diâmetro. Cada equipa é constituída por 7 elementos que rotativamente aplicam a sua jogada. Em cada uma destas jogadas se bebe uma ginjinha, seguida de um lançamento do respectivo caroço a partir de vários círculos a diversas distâncias dos tais orifícios centrais, tentando neles acertar. Os círculos mais distantes dos orifícios centrais dão uma maior pontuação, pelo que essas apostas são habitualmente utilizadas pelos jogadores com maior capacidade de sopro, e em alturas onde se pretendem recuperações de desvantagens no marcador.

Há no entanto várias técnicas de arremesso do caroço: uns enchem o peito de ar e cospem com precisão militar o caroço, outros lançam o caroço na vertical e de seguida chutam-no, e outros há ainda que tapam uma narina e fecham a boca, arremessando o mini esférico pela narina oposta. Nestas ocasiões o caroço é envolvido por um ranho verde e viscoso que permite uma aterragem com maior acerto, pois o atrito é maior.

Em extremos diametralmente opostos da arena, coloca-se a equipa técnica de cada uma das selecções, com toda a parafernália necessária ao decorrer do jogo. Uma vez que este se pode prolongar durante horas, a máquina de imperiais é essencial para que se mantenha uma boa hidratação dos jogadores, enquanto o tradicional banco de suplentes é substituído por mesas corridas onde abundam os leitões assados, javalis no espeto, codornizes de Albufeira, salada de frutas e chamuças gigantes. O grupo de assistência técnica é formado por massagistas faciais, ensaiadores de sopro, psicólogos de sábado, quiromantes, cartomantes e especialistas de decoração Feng-Shui.

Neste tipo de provas, a equipa fixa de arbitragem é habitualmente constituída por dez elementos, uma vez que têm de ser regularmente substituídos. Em cada lançamento de cada uma das equipas, o árbitro principal brinda e ingere a ginja e o caroço. Os que têm um maior índice de massa corporal suportam várias jogadas seguidas, mas quando começam a andar de gatas para validar os caroços nos buracos, têm de ser rapidamente substituídos. Há os que suportam e aguentam bem o licorzinho, mas que por vezes se deparam com a tripa tão atafulhada de caroços que têm de desistir por cólicas. Nestas alturas, a bolsa de apostas do mercado negro incide sobre o número de jogadas que cada árbitro irá suportar, sendo excluídos aqueles que recorrem ao uso de doping como suplementos de água del cano.

Nestes míticos jogos, os únicos penaltis que existiam eram os efectuados pelo melhor jogador da equipa da Lusália, conhecido como “Mikas Sarrasqueiro”, que desempenhava os chamados penaltis invertidos, famosos pela arrojada cambalhota e arremesso da pevide ao buraco. Um portentoso jogador era também o “Sanfonas, que de tão rápido que era a engolir a ginja, até tragava o caroço. Outra verdadeira lenda do Ginjabol: o “Hammer”! Uma pontaria certeira, umas trajectórias elípticas, o maior número de jogadas seguidas sem cair em campo. Tornou-se uma verdadeira imagem de marca ter sempre o bacalhau assado e a máquina de imperiais por sua conta...

O jogo podia durar horas a fio, mas mesmo quando se dava por terminada a disputa, que ocorria quando 2/3 dos elementos de uma das equipas ia parar ao Hospital, a vitória era celebrada num qualquer recanto da aldeia com alegria e boa disposição.

Estes torneios e toda a sua envolvência, eram no fundo um dos maiores motores impulsionadores do socialismo.
Toda a parafernália e agitação que mobilizavam, ainda hoje são sede de cruzamentos intergeracionais que constituem a base de toda uma estrutura populacional e que permite consolidar a verdadeira essência dum povo à luz da teoria do fole: a sua alma!

Viva o desporto!






sexta-feira, 3 de julho de 2015

Face up


Desde sempre as redes sociais se organizam da forma como a própria palavra a denomina: socialmente. E socialmente faz-se através do convívio directo, da presença, dos diálogos, da comunhão, do falar, do estar. Tem sido assim desde sempre, que se constroem relações e se constituem fortes laços de cumplicidade e partilha.
Por isso, não sei se deveríamos apelidar de redes sociais estas novas abordagens tecnológicas e instrumentos virtuais.

Assumidamente, concordo plenamente que as redes sociais informáticas são de uma enorme utilidade e constituem-se como um acréscimo que pode potenciar e valorizar as relações humanas. O que acontece é que perversamente se substituem a esse mesmo relacionamento, criando falsos trajectos de afectos.

Não sou habilitado academicamente para me pronunciar sobre esta questão, e com certeza  existem centenas de estudos e reflexões já nesta área, mas em termos sócio-psico-antropológicos isto deve ser um regozijo para os estudiosos da matéria. Não somente nestas perspectivas mas até no campo linguístico, se considerarmos o léxico que introduziram na nossa linguagem comum: post, like, feed, mural, link, click, selfie, etc.

E é de facto um fenómeno impressionante a explosão dos twiters e facebooks por este mundo fora. Será que as pessoas estavam ávidas de relacionamento, ou será que encontraram os seus 5 minutos de fama eterna? Criou-se em pouco tempo um polvo de relações articuladas, que na maioria dos casos exibe o bom, o mau e o assim-assim de cada um. E muitas vezes partindo da iniciativa do próprio! Não consigo perceber que no “face” (chamemos-lhe assim porque já é tão nosso íntimo...), se exponha a vida sem critérios. Todos tentam personalizar o seu perfil ideal e idealizado, mas que obviamente nunca expressará a realidade vivida, sentida e inconscientemente partilhada.

Criam e apregoam-se falsas vidas de alegria, de rejubilação, de permanente festa, que não correspondem minimamente à verdade. Fotos sempre a sorrir, sempre alegres, em que tudo parece impecável e sem defeito, onde não há lugar à imperfeição ou ao feio. Todos ambicionamos isso, mas o problema é que esse mundo não existe, e logo as pessoas se defraudam a elas próprias porque passam a acreditar num imaginário que até foi construído pelas mesmas. Mas a dada altura tropeçam e aí sabemos que a queda é maior...
Para muitos, esta vida faz-de-conta é aquela em que confortavelmente vão construindo o seu edifício de personalidade virtual.

Quase todos fazem intervenção social e questionam várias matérias de cidadania, justiça, direitos e deveres. É um processo tão cómodo e tão à distância de um clique, que na maioria das vezes se esquecem de praticar esse mesmo género que apregoam. Sobretudo aquelas pessoas que estão sempre a postar apelos, solidariedade, doações, indignações para com injustiças, mas depois não praticam esses mesmos gestos no seu dia-a-dia. Coitadinhos dos palestinianos, que injustiça atroz os clandestinos do Mediterrâneo, como me indigno com as crianças que passam fome. Vamos lá, que quantos mais likes, mais se ajuda! Mas no clique seguinte já me esqueci e passei para os vídeos loucos do futebol...
Muita acção no dedo, pouca iniciativa concreta. Como dizia o conhecido: "falam, falam, mas não os vejo a fazer nada!"

O sucesso deste modus, também reside na facilidade e rapidez de difusão da informação. As partilhas instantâneas são o espelho desta fragilidade e isolamento. Porque partilhar naquele momento, aquela situação, aquela fotografia, aquela música, faria se calhar mais sentido num determinado momento, num determinado contexto, com determinadas pessoas. Um amigo, uma mulher, um companheiro, um filho...Se partilhamos tudo muito rápido, perde-se magia e encanto..
A cumplicidade com os outros faz-se através de pequenas sintonias e de pequenas histórias em conjunto. É por isso que quando alguém por exemplo coloca uma música no mural, está a privar-se dessa cumplicidade e desse momento que poderia ser de intimidade, passando rapidamente para um vazio de anunciação desse encontro especial. Que banalização, não...?

Mas também podemos ter outra leitura. A de que estes inputs são-no para chamar a atenção, para dizer estou aqui, para dizer eu existo, falem comigo, façam likes porque assim me sinto vivo! Talvez..

Nesta análise narcísica, o culto do "eu" tem o seu apogeu máximo nas selfies! Eu a pentear-me, eu a conduzir, eu com estas vedetas, eu a acordar, eu com o Zeca, eu a fazer uma careta, eu sempre a arreganhar a taxa! Se isto fosse partilhado com um pequeno núcleo de pessoas ainda dava um desconto, mas assim em canal aberto parece-me um pouco frágil. Já que ninguém me endeusa, eu que me valorize, não é...?

E quando passam para os mais banais retratos do dia-a-dia, torna-se um pouco incómodo de aturar. O paradigma destes desabafos, são os facebookianos que publicam que fizeram cocó às 11h20m, postam uma foto do que lancharam essa tarde, e no fim colocam um pensamento filosófico ao deitar, desejando uma boa noite a todos. E o que não deixa de ser mais surpreendente nisto tudo, são os likes que obtiveram nestes mesmos comentários, provavelmente dos voyeurs profissionais.

E as tertúlias? Ah! Que saudades das tertúlias...
Nesta nova versão, há sempre um candidato a jornalista que pergunta algo do tipo: o que acham da neve sobre o resultado na democracia cristã? E logo desembestam os comentários, e os comentários aos comentários, que terminam infelizmente sem os brindes nem os abraços de despedida das reais tertúlias. Assim se perde a espontaneidade, o desafio, o cara-a-cara e a valentia de assumir os seus pontos de vista perante os olhos dos outros. Muita solidão que anda por aí...?

Do ponto de vista global, tenho a certeza que o face é uma mais-valia imensa deste novo mundo que criamos a cada segundo. Transmite-se informação fácil e rápida, revêem-se e renascem contactos anteriormente perdidos, é um excelente canal de divulgação de projectos e ideias, é ponto de partida para pequenas e grandes teorias do fole, etc, etc e etc.

Mas como tudo na vida, deve ser usado com moderação e bom senso, com educação e respeito, mas sobretudo com rentabilidade, eficácia e eficiência. Quantas horas perdem as pessoas a seguir obsessivamente os posts dos outros, quando as poderiam aproveitar a passar com os filhos, com os amigos, com os seus amores? Este mundo de bytes e gigas não é o centro de tudo. Nós é que devemos ser o centro de tudo.

Para as gerações que nascem agora, será sempre com naturalidade que agirão nestes contextos, mas há que trabalhar para que este tipo de relacionamentos sejam um extra e não o cerne das interacções.

Escravos da ditadura do vício...?
Para alguns sim...

Mas agora vou largar o computador e jogar à bola com os miúdos!

Um abraço cibernético a todos e um até já para alguns....

domingo, 17 de maio de 2015

O Elevador


Cum raio! Um homem trabalha uma vida inteira, casa-trabalho-casa e nem sequer a porcaria de um elevador tem quando chega ao escritório! Olha que isto de subir 58 andares a pé, tem que se lhe diga...

Jonas trabalhava naquela mesma empresa de contabilidade desde há 27 anos. Raramente tirava férias, e tudo o que amealhava colocava num porquinho de loiça que a tia lhe tinha oferecido. A mesma tia que fugira com um marinheiro mexicano que se vestia de toureiro todos os sábados, e lhe tinha prometido que quando chegassem ao México a coroaria de Miss Tequila. Ainda hoje lhe manda postais de Jalisco, com meias de renda, fato de variedades e um cão a tocar maracas.
"O trabalho não aleija", era o seu lema de vida.

Nesse dia, como tantos iguais a outros, o trabalho mais uma vez não o tinha aleijado.
Arrumou a sua pastinha de couro, dobrou a manta que usava por cima das pernas, e apagou a luz do candeeiro de mesa não se notando a falta da mesma, já que a geral estava ligada.

Restava pouca gente no edifício, e dirigiu-se ao elevador que hoje parecia diferente e estranho. As luzes estavam todas acesas e uma das do tecto parecia trémula de frio, parpadeando aos solavancos.
A porta estava aberta e avançou, fechando-se automaticamente atrás de si com um deslizar invulgar, como se entrasse nas entranhas de uma criatura pré-histórica e a boca se tivesse fechado...
Não encontrou o botão zero, mas havia um de cor amarela que presumiu ser um novo botão de saída.

Carregou, e de imediato o elevador começou a descer. Arrancou devagar, mas ganhou velocidade, não como se estivesse a cair, mas sim num suave acelerar em sentido descendente. Era impossível já não ter chegado ao piso térreo, caso contrário já se teria esborrachado contra o solo! 
A descida parecia infinita, cada vez mais depressa, cada vez mais abismal.

Teve de se agarrar ao corrimão, porque iam já a uma velocidade vertiginosa e alucinante! Sentia tonturas e o sangue a esvair-se pela cabeça, de tal maneira que desvaneceu sem forças deixando-se levar inerte para o centro da Terra...

Acordou atordoado e maltratado, sem saber onde estava.
Olhou à volta e para si, guardou a teoria do fole que entretanto lhe tinha saltado da pastinha de couro, e carregou no botão de abrir.
Saiu e teve dificuldade em reconhecer que sítio seria aquele, porque a luz e o calor intenso lhe tolhiam o cérebro.
Mas era um mundo diferente com certeza!

Não conseguia perceber que lugar era, com um mar de magma, criaturas voadoras meio cabeças de cegonha-meio rabos de mulher, num céu amarelado com uma espécie de nuvens cantantes, que transportavam bandas de afro-rock-punk. E que calor! Sufocante!

Tropeçou inadvertidamente num ser de três patas e sorriso trocista, sentado numa cadeirinha de praia laranja:
- Então..? Demoraste a descer, hãm..?
- Eu..? Ooonde estou...?
- Onde estás? No inferno paradisíaco, onde querias estar? És o número 57! Anda!

Enquanto corriam, reparou que tinha perdido as suas calças de fazenda e as cuecas, ficando um pouco mais arejado e liberto de pressão nas zonas mais baixas. Curiosamente ninguém ligava a isso, e as criaturas com quem se cruzava sorriam e bamboleavam o dedo em campânula de sino.

Chegaram a um balcão soturno, misterioso, com muitos papéis e carimbos sobre a mesa, os utentes sentados em cadeiras enormes, enterrados e curvados sobre as dívidas morais que tinham para pagar.

Chamaram o meu número e a criatura lá me indicou um assento de madeira rija, que rangeu num roar ruidoso. Do outro lado estava um ser com duas cabeças e quatro braços, que freneticamente carimbava papéis de 25 linhas azuis como se marcasse o ritmo com baquetas. Levantou uma das cabeças, enquanto a outra salivava sobre as folhas, e sorriu por cima dos óculos na ponta do nariz:
- Jovem Jonas, sabeis a prova a que vos sujeitais...?
- Não sei bem - balbuciei sem saber o que responder...
- Mais um desinformado! Caramba, que lá em cima não sabem fazer nunca uma triagem certa!

Arregalei os olhos muito admirado e sem perceber, mas ele lá continuou:
- Bom, chegaste ao fim da linha da tua existência e tens de passar a última prova para saber se podes entrar no inferno paradisíaco com aptidão máxima. Para isso tendes de responder e cumprir três tarefas.

Nem queria acreditar em tamanha alucinação! Então eu faleci e mandaram-me para as trevas em vez de me mandarem para o Céu? Devia haver um engano qualquer, porque eu ponho o lixo todos os dias no caixote, ajudo as velhinhas a atravessar a rua, contribuo para todos os cabazes, conforto sempre as meninas do cabarét, nunca assobio o presidente, enfim um modelo de pessoa... Será que foi daquela vez que não alimentei os pombos, quando eles migraram para uma festa no Ginjal? Não....está tudo louco!

O bicéfalo estacou e fitou-me seriamente com os três olhos:
- A primeira pergunta é: quantos empregados ucranianos há em Alcochete?
- A segunda é: quantos refegos tem a Lili Caneças?
- A terceira: se eu fosse teu primo, quem poderia ser a minha mãe...?

Huuuu! A assembleia torceu a cara e abanou a cabeça, porque temia que eu não conseguisse alcançar as respostas certas...senti uma tontura que quase me fez cair e vomitar o galão que tinha bebido ao lanche, lá em cima.

Nessa altura fechei os olhos, respirei fundo e imaginei toda Alcochete vestida de barrete russo e polaina branca, vi mesmo a Lili engomando-se os refegos, e pensei na minha família toda até a décima geração de bosquímanos.
As minhas mãos suavam que nem sovaco de visigodo, a minha barriga encheu-se de borboletas que queriam desesperadamente sair, e o meu coração dava pancadas do lado de dentro cada vez mais secas. Mas tinha de acertar senão estava feito!

Cá vai disto, pensei!
- Eh....acho que são 57 ucranianos (sem contar com o anão Uchev), 438 refegos (tirando o rego do ass) e a minha mãe poderia ser a nora da avó da tia que se parece ao primo da filha da empregada adoptada.

No exacto momento em que me saíram as respostas a aquelas perguntas tão disparatadas, cerrei instintivamente os olhos com força, para não ver o embate que me teriam reservado depois de tamanha invenção...

Mas o que aconteceu foi deveras miraculoso...Uma estridente sirene soou, um rotativo cor-de-rosa acendeu-se e pequenos foguetes foram lançados por um pipeline improvisado, ao mesmo tempo que a multidão eufórica entoava em cânticos gregorianos: "já te safaste, já te safasteeee!"
Não sei se desmaiei ou se morri pela segunda vez, mas digamos que "apaguei"....

Nesse preciso momento, fui sugado por um tubo que fazia um sistema de vácuo ascendente, e apareci à porta do elevador do meu escritório, completamente azamboado e ainda a pensar se tudo isto não teria passado de um pesadelo....

Só quando olhei para o lado e vi as minhas calças e cuecas penduradas da maçaneta de uma porta enquanto uma fresca brisa me refrescava as minudências, é que percebi que tinha revivido.

Há quem diga que destes sítios nunca ninguém volta.


Pelo sim ou pelo não, nunca mais desci de elevador...

sexta-feira, 27 de março de 2015

iTunas


Tunas para quê?
Neste conflito de interesses posso ser suspeito para divagar sobre o tema, mas tentarei o afastamento suficiente e a leitura imparcial, para poder discriminar o muito de bom que têm.

Não vou obviamente dissertar sobre praxes, ou caloiros, ou organizações estudantis, ou o que quer que tenha a ver com essas questões. Isso fica quiçá para outra teoria do fole…
Sinceramente não sei se gosto de tunas! Mas posso dizer que gosto de algumas tunas e que gosto de algum tipo de música feito por tunas.

Costumo segmentar um pouco este submundo, dividindo as tunas em duas: aquelas que apostam e mantêm a qualidade musical como o seu desígnio, e aquelas que funcionam apenas como complemento à vida académica curricular. Podemos designá-las de tunas X e tunas Z, sem prejuízo de poder estar a atribuir maior importância a uma do que a outra, sabendo que têm os seus cabimentos lógicos nos meios onde se desenrolam as suas acções.

As tunas Z são aquelas de menor dimensão, constituídas indiscriminadamente por estudantes que tendo um mínimo de aptidão musical integram o grupo, e podem assim expressar a sua vertente artística e participativa. Naturalmente que este facto repercute-se directamente no produto final alcançado! Têm geralmente uma fraca performance musical, sendo por vezes difícil de as ouvir durante muito tempo porque se torna uma tarefa deveras penosa...São por isso olhadas de lado pelos músicos e melómanos, que as condenam de imediato num primeiro contacto.

De facto, a qualidade musical destes grupos é obtusa, mas isso para mim até que nem é o mais negativo. Infelizmente, enfermam de um mal que é comum à maioria das áreas sociais e não se cinge às tunas, que tem a ver com a falta de limites e com o desmembramento de uma série de regras empíricas que nos marcam as fronteiras do bem/mal, do correcto/incorrecto, do abrutalhado/com classe, da postura/desleixo. Podem ficar assim contagiadas pelas atitudes mentecaptas de alguns universitários, que usam e abusam de comportamentos menos próprios e bastas vezes imaturos...

Isto leva a situações quotidianas, em que basta que uma destas tunas tenha uma intervenção ou atitude de um nível diferente, para que logo todas as outras sejam postas injustamente no mesmo patamar. Chama-se popularmente "pagar o justo pelo pecador"! E só porque envergam um uniforme e são universitários, se contamina esta ideia a tudo quanto é tuna!! Não tá certo...Por isso o Herman José e outros humoristas, fazem rábulas a zombarem das tunas. Porque estas dão o flanco...

Mas a isso não deviam ser condenadas, nem tantas vezes ostracizadas. Desempenham um papel fundamental na integração dos vários estudantes da instituição, têm quase todas um espírito de grupo invejável, permitem que muitos alunos tenham contacto com música, com instrumentos, com ensaios, com palcos, com um cancioneiro nacional, e transmitem normalmente alegria, boa disposição e entretenimento. Englobam os elementos como fazendo parte de um conjunto, e sem ser o seu propósito primário, acabam por desenvolver dinâmicas de progressão individual. Com uma série de itens de responsabilidade e comportamento cultural, estas tunas têm iniciativas próprias muito valorosas para as instituições que representam, sendo uma alavanca de crescimento e maturidade para os indivíduos que as integram.

No campo diametralmente oposto a este, as tunas X, quer pela sua natureza, quer pelas suas capacidades próprias e estruturais, têm outros desígnios e objectivos. Independentemente de representarem uma faculdade ou uma universidade, todas têm um propósito essencial: fazer música!
E é aqui que se concentra todo o poder e energia destes grupos! Têm geralmente bons executantes, bons ensaiadores, ensaios produtivos, rigor nas apresentações, um repertório estruturado, muitas criações musicais.

Pelo esforço e dedicação que algumas imprimem, merecem-nos todo o respeito, porque não nos esqueçamos que estas participações são voluntárias e não remuneradas. O profissionalismo e brio destes grupos, não nos podem fazer olvidar que estamos perante amadores que dão o melhor de si para que os espectáculos vão avante.

Muita gente acha que é tempo desperdiçado e mal gasto nestas andanças, mas do meu ponto de vista essa é uma visão completamente errada. Errada, porque há toda uma riqueza que se ganha e se se conquista. É verdade que muitos abdicam das suas vidas pessoais para dedicar tempo aos ensaios, ao conceito do espectáculo, às musicas novas, a discutir novas formas de abordagem musical, a estudar e reinventar o cancioneiro português, a vestir uma nova roupagem melódica a outros cantos, a criar música, letras, canções, a fazer história, a marcar os corações  e almas daqueles para quem cantam. Mas a isto chama-se crescer, construindo, munindo-se simultaneamente de armas que lhes serão úteis ao longo da vida.

A prova disso, são as centenas de elementos das tunas que comprovadamente ocupam hoje lugares de destaque nas suas diversas áreas profissionais. Desde a ciência à arte, do académico ao empresarial, muitos são figuras de renome e com provas dadas de valores, como verdadeiros exemplos de cidadania.

Estas tunas têm esse extraordinário mérito que não encontramos em muitos outros sectores. Trabalham, e bem, de forma genuína e gratuita, pelo simples prazer que lhes dá o fazer e criar música. Este é um bem inestimável, impossível de dimensionar, porque a própria espontaneidade do movimento tunante radica num sentimento aberto de partilha, e numa força de grupo que transpira e se sente quando com elas convivemos.

A sua existência conquista por si só um lugar na história, mas um dos grandes méritos que podemos atribuir às tunas, é o facto de terem recuperado muitos dos instrumentos tradicionais portugueses! Numa época em que o digital, as novas tecnologias e os artificialismos ganham terreno, foi este remodelado universo que recuperou toda a arte e saber dos instrumentos artesanais portugueses. O bandolim foi reavivado, a guitarra portuguesa ganhou novos adeptos, o cavaquinho passou a ser tocado por centenas de jovens, a secção rítmica reconquistou sons antigos, entre tantos outros exemplos reveladores da importância da redinamização de todo este comércio e conhecimento que estava em esquecimento e desaparecimento rápido.

Em termos genéricos e no momento actual, este microcosmos, e muitas vezes considerado submundo, encontra-se numa fase de decisão. Decisão no rumo que quer tomar, e na forma que se quer assumir dentro da sociedade. Este é o momento de dar o salto qualitativo, de se estabelecer como Instituição onde os seus elementos possam encontrar um espaço para continuar a exercer o seu trabalho pró buono, em prol de algo que lhes traga satisfação, mas que tenha impacto no meio onde vivem. As tunas têm de se reinventar e reinventar as suas formas de intervenção. Algumas já começaram a romper com esse status quo, através de espectáculos diferentes, colaborações com orquestras e bandas, parcerias alargadas, registos de produção, acções sustentadas de solidariedade, criação de escolas de música, envolvimento em acções educativas, etc, etc.

No entanto, e a meu ver, a chave do sucesso residirá na capacidade que cada tuna terá, em saber criar laços com o público e alargá-lo, amplificando a sua oferta musical e envolvendo diversos sectores sociais. Para este desiderato, sair do casulo universitário é fulcral. Ao mesmo tempo, a nível interno, a lógica de participação terá de ser alterada para um processo que permita um prolongamento de intervenção das gerações mais velhas, trazendo maturidade e um know-how que constitua solidez, maior coerência e continuidade aos projectos delineados. Existem muitas soluções, muitos caminhos que podem ser tomados, para que toda esta labor e todo este manancial de trabalho produzido possa ser rentabilizado e gerador de novas oportunidades nos diversos setores sociais e culturais.

Digamos que é um mundo sui generis, ao qual lhe será dado o real valor quando as pessoas se aperceberem do real valor de mercado que ele representa...


A ver vamos...