sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Nota 20 em 10





Olá Francisco,
Escrevo-te estas simples linhas para que um dia estes conselhos possas recordar. Chegaste  à bela idade de 10 anos e terminaste uma grande fase da tua formação. Estes anos de escola primária foram muito importantes, pois esta é uma das bases que levas da tua educação. Aquilo que achas que é uma seca hoje, amanhã ser-te-á muito útil!
O esforço e a dedicação que colocamos em ti são para que cresças e sejas um adulto responsável, íntegro e trabalhador. 
Responsável, por ti e pelas atitudes que tomas. 
Íntegro, de bom coração e honesto.
Trabalhador, na medida em que te esforces sempre para fazer mais e melhor, independentemente dos resultados obtidos.
Os pais gostam sempre dos sucessos dos filhos, mas mais importante que a felicidade que nós temos nos teus sucessos, é a alegria que deves sentir quando os alcanças. Isso deve ser o mais motivador para que queiras dar o melhor do teu fundo, e assim saber que podes alcançar tudo na vida.
Mesmo se achares que as coisas são difíceis e não as consegues fazer, tenta. Tenta e volta a tentar. Porque só tentando é que sabes se consegues lá chegar. Não desistas de nada. Vais ter alguns desgostos e insucessos na tua vida, que por estranho que pareça, te vão fazer olhar para o mundo como um sítio onde nós podemos mudar o nosso destino e o nosso rumo. Faz parte do nosso crescimento. Sempre para o bem, e sempre com o sentimento de que fizemos tudo de consciência tranquila.
Deves ficar inchado de orgulho porque tiveste sempre boas notas, porque tu és música, porque as pessoas gostam de ti. Mas deves ficar ainda mais orgulhoso porque ajudas os outros, porque pensas nos outros, porque dás de ti genuinamente. E assim chegas mais longe.
Terminaste este ciclo no tempo contado, e estes anos de escola foram bons e felizes. Estás ao ritmo certo e ainda és uma criança, que vai crescendo como deve ser, etapa sobre etapa. Não tenhas pressa em nada, e nunca queiras atropelar-te a querer crescer muito depressa. Estás a ir muito bem. Vai descontraído e tranquilo.
Na tua vida precisas também de brincar. Brincar muito, rir muito, ler muito, falar muito com os teus amigos. Os telefones e ipads são giros e entretidos, podemos usá-los de vez em quando, mas mais importante que isso é falar com as pessoas, descansar a cabeça e não estar só focados num ecrã fechado. 
Outro conselho que te quero dar é que olhes muito e observes à tua volta. Tenta distinguir o bem do mal, o certo do errado. Ninguém nasce ensinado e tu ainda estás a aprender, assim como nós estamos sempre a aprender coisas contigo. Olha e vê! Olha os pássaros e vê a liberdade. Olha a natureza e vê a generosidade. Olha a família e vê o amor. Olha os outros e vê como tu poderás ser. Olhar e ver!
Lembra-te sempre de uma coisa: o pai e a mãe vão estar sempre a ajudar-te para que sejas melhor pessoa, mas sobretudo para ser aquilo que queremos sejas sempre: Feliz!!!
Um beijinho deste pai que te ama infinitos!

“Sozinho podes ir muito rápido, mas acompanhado podes ir mais longe”



segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Bandeiras e Fronteiras


O estudo da história e das civilizações antigas traz-nos muitos ensinamentos e lições que fazem eco nas atitudes de hoje. Tudo se repete e tudo se volta a desenrolar num pressuposto de tábua rasa, mas que efectivamente é a cópia de alguma revolução fascista ou comunista que algures explodiu num qualquer canto do mundo.

Tudo porque a essência do homem é a mesma, com os seus egos, as suas traições, desejos de poder, de glória, de manipular o futuro, como se ganhar e perder com pessoas fosse um jogo de tabuleiro, onde saltar peças e comê-las se transforma num atropelo corriqueiro dos direitos humanos.
E se há verdades insofismáveis que perduram centenas de anos, há outras que pelo seu pouco valor intrínseco se perdem na inconsistência da sua existência, existindo ainda  as que evoluem dentro de uma génese matricial forte e duradoura.

Mas neste processo de fazer história, depreende-se que cada passo seguinte é num sentido ascendente das mais variadas vertentes sociais e humanas, que a cada passo que o homem avança se dignifica a pessoa e o grupo. Por isso começaram a aparecer os sistemas democráticos de gestão de comunidade, como sendo os sistemas mais equilibrados com a heterogeneidade dos homens que a constituem. E isso foi conseguido à custa de um papel cada vez mais importante do individual relativamente ao colectivo, o que visto de longe, se aproxima em teoria daquilo que será o mais justo e equitativo.

Na sociedade actual, o nível da democracia é directamente proporcional ao grau de exigência dos seus cidadãos. Se lutarem pelas suas convicções e as suas causas, encontrarão eco e ganharão relevância numa democracia sã, que lhes dará o espaço necessário para as aplicar.

O que hoje vemos na Catalunha é o reflexo dessa maturidade(?), de uma democracia que demorou décadas a construir no seio de uma Espanha que ganhou o seu caminho próprio, levantando o orgulho ferido de uma ainda memória recente da dura ditadura Franquista. Uma batalha que reconhecemos poder ser decalcada de um outro momento determinante nesta história dos poderes. 
Uma intenção que avançou como quem tira um bilhete de autocarro, anunciando simplesmente uma declaração que presumo eu não imaginaria as suas verdadeiras repercussões. 
Independentemente dos excessos que tenham sido cometidos e da violência sempre de condenar, o que aconteceu na Catalunha foi o eclodir do desconforto sentido por alguns, da apatia de muitos, e do aproveitamento enviesado de algumas personagens com perfis de líder. É nesta exploração e gestão dos humores individuais que reside a motivação de uma região que já tem identidade e características próprias, mas que questionamos ser suficiente para a sua própria afirmação.

Ao longo da sua existência, esteve sob as bandeiras e os caprichos de gregos, cartagineses, romanos, visigodos, árabes, franceses, espanhóis, e todos eles reclamaram hegemonia própria. Não sejamos redutores o suficiente para afirmar que um país se constrói porque tem uma bandeira, um idioma ou uma fronteira com mais de x anos. Pode começar por aí, mas todo o processo tem de ser guiado com sabedoria e engenho político. Estas revoluções em democracias consolidadas, não podem nunca ser intempestivas nem disruptivas, porque criam uma tal instabilidade e uma perturbação daquilo que é um quotidiano diria eu sereno, que colocam todos os intervenientes e as suas populações numa posição de levianos extremismos. E a partir daqui é muito fácil resvalar para o caos e para as intransigências sob o chapéu da argumentação da liberdade e convicção dos povos.

Respeito obviamente as vontades das pessoas, e provavelmente por ignorância não percebo este afunilar de decisão numa independência abrupta e mal preparada. Concebo que a Catalunha tenha em perspectiva um futuro sob desígnio próprio, se assim for o desejo da sua maioria, mas também compreendo uma Espanha que vê uma disrupção da sua identidade comum. Às duas partes se pede diálogo e abertura de mentalidades, para que se percebam quais os verdadeiros interesses e vontades das pessoas e não se esgrimam bandeiras políticas que bastas vezes são ocas daquilo que é a vida no dia-a-dia. Colocam-se desnecessariamente irmãos em disputa, famílias em conflito, empresas em pânico, alimentam-se inseguranças, deflagram atritos que nunca existiram à mesma mesa de casa. Abriram-se feridas nesta sociedade que com muita dificuldade irão sarar, e desconhecemos quais as suas reais consequências num futuro próximo.

E talvez mais abrangente que isto, é que a Europa se ressente destes esgares de regionalismo, na medida em que a própria Europa se tenta reerguer sob uma batuta de unificação e uniformização, mantendo as diferenças e identidades locais e resistindo a afogar-se num contexto de globalização mundial.

As revoluções do mundo moderno não podem ser geoestratégicas ou políticas, e muito menos de afirmação masturbatória. Têm de ser revoluções sociais e humanitárias, que movam consciências e consolidem aquilo que de mais valioso temos:o Planeta e o Homem.


Por esta ordem…

domingo, 18 de junho de 2017

Ciccio




Naquela altura os filmes iam e vinham com uma cadência que não é a de hoje. Nas grandes cidades podiam-se ver estreias mundiais, mas sempre com um atraso significativo relativamente ao que já tinha corrido mundo. A indústria americana encontrava-se no auge da produção mundial de filmes, e Hollywood confirma que é de facto a fábrica de sonhos.
Enquanto isso, um pequeno país na pontinha da Europa sobrevivia, acabado de sair de uma revolução que apesar de pacífica, ainda sofria das reminiscências de um poder opressor e silenciosamente tentador do controlo total.

Nestes idos anos 80, Manuel movia-se no mundo das artes e neste caso do cinema, como peixe dentro de água. Representava várias empresas de distribuição de filmes da Europa, e conseguia todas as películas em primeira mão que estreavam na metade sul de Portugal. Um seu outro amigo tinha tacitamente o acordo de representação para a metade acima do Tejo, pelo que assim, ambos mantinham a hegemonia do negócio e repartiam o país em dois, tal qual tratado de Tordesilhas em filme.

Para além de estrear em todas as salas de Lisboa e arredores, Manuel fazia muitas incursões na sua Renault 4L, que carregava com a máquina de projecção, a tela e todas as bobines de filmes da altura, para de aldeia em aldeia e de cidade em cidade, percorrer durante uma semana por mês aquele interior alentejano esquecido e vermelhíssimo...

Um dia estava no seu escritório, num primeiro andar da rua dos Fanqueiros, quando recebe um telefonema de um fiel fornecedor das novidades cinematográficas: tinha uma nova película que estava a fazer furor na Alemanha! Tratava-se da nova coqueluche europeia: a actriz ítalo-húngara de filmes pornográficos Ilona Staller, conhecida artisticamente como Cicciolina, sendo naquele tempo figura emergente numa Europa que cada vez se tornava mais liberal e libertina. Os seus filmes esgotavam salas, só para o seu fiel público admirar artes de performance e muitos malabarismos capazes de surpreender o mais incauto espectador....

Manuel ficou mesmo entusiasmado pelo furo, e tratou logo de dizer que sim, antes que a concorrência apanhasse aquela que seria a obra-prima do porno mundial. Não foi uma negociação fácil, porque o intermediário pretendia sacar um bom dinheiro, mas não se intimidou e conseguiu no final um preço. Não fosse ele um português dos quatro costados..

O filme viria do circuito alemão, mas a entrega teria de ser combinada clandestinamente em Espanha, onde o correio atravessaria as fronteiras desde a Alemanha para deixar a encomenda num local seguro.

Naquela noite de sábado estrelado nem dormira, tal era a excitação! Arrancou na 4L que já sabia o caminho para o Alentejo, contrariou-lhe a direcção dos caminhos que já conhecia, cruzando a fronteira espanhola por Vilar Formoso. Chegado à aldeia de Torrevieja del Pinar, seguiu as setas que indicavam igreja, como assim lhe tinham dito em Lisboa. Já passava da meia-noite e nem vivalma naquelas pedras que tinham testemunhos de séculos de intriga e guerras peninsulares.

Encontrou a porta da casa e bateu suavemente com os nós dos dedos três nervosas pancadas, abrindo-se uma janela na escuridão da noite, enquanto um corpo se esgueirava para perguntar num castelhano mal disposto:
- Pero quién coño llama a estas horas?!!
A voz não lhe saiu clarinha e fugiu trémula, mas foi suficiente para o convencer:
- Vengo a por la película....
Logo a janela se fechou e ouviu passos que desciam a escada, ao mesmo tempo que as luzes se iam acendendo pelo caminho. O homem era atarracado e rude, e as parótidas não deixavam mentir os seus hábitos alcoólicos.
Enquanto esperou por ele na sala, pensava em como iria passar a fronteira de volta com aquele material que levantava tanta suspeita..
O homem das parótidas, regressou com duas bobines enormes, que continham o filme do ano enrolado dentro duma caixa de metal resistente, sob um autocolante que dizia "Frágil", mas em bom alemão.
Escondeu uma bobine por baixo da roda suplente, e a outra por baixo do banco dos passageiros, mas a aquela hora o guarda fronteiriço apenas espreitou para dentro e lhe pediu um cigarro para a viagem. Ufa! Desta já se tinha livrado!

Chegado triunfante a Lisboa com o seu pequeno tesouro do momento, tratou de telefonar ao grande amigo Zeca Palito, para que este o ajudasse na preparação da montagem. Assim o chamavam porque em todos os cocktails e recepções em que se infiltrava, apenas comia o pastel de bacalhau e os croquetes com um palito. Nunca mais se livrou da fama, e ainda hoje traz no seu fato engomadinho um cartucho de palitos das melhores fábricas do norte. Conhecia as peripécias de Cicciolina e até tinha em tempos assistido a uma performance em directo da artista, quando passou pela cidadezinha austríaca de Lipzhagen, pelo que seria talvez o português com mais intimidade e à vontade com a actriz italiana. À vontade e à vontadinha...

Quando chegou à rua dos Fanqueiros, Manuel abriu-lhe a porta, sem sequer o cumprimentar e rosnou-lhe que viesse ajudar porque era verão e ele já suava de montar o projector..
Tirou o boné de imediato e ficou fascinado com as etiquetas que o material detinha. Um grande escrito à mão com o título do filme para que não restassem dúvidas: La conchiglia dei desideri, dirigido por Riccardo Schicchi (1983), era o primeiro filme a estrear em todo o Portugal, daquela  porno star Europeia...

Sentaram-se os dois em frente à imagem projectada na parede branca, apagaram as luzes e apenas ouviam a fita a deslizar com uma luz lateral intermitente sob as suas caras, enquanto apareciam os primeiros fotogramas. Uma música ambiente de orquestração barata dava o mote para as primeiras imagens duma pradaria onde se via uma rústica casa de montanha. A porta abre-se, e um grande plano da loura branquinha e lábios marcadamente vermelhos, mostra o olhar lascivo e ao mesmo tempo pueril, que denunciava tudo o que viria a se desenrolar naquele ambiente de exploração carnal. O decote pronunciado que caiu de repente ao fim de sete minutos de projecção, seria o fósforo que nunca mais apagaria a essência da história. O filme estava muitíssimo bem conseguido, quer do ponto de vista dos arrojados planos cinematográficos obtidos, mas quer também do enredo e dos personagens criados.

Visualizaram o filme até ao fim, não sem que lhes entumecessem os opíparos instrumentos em bastas ocasiões, mas quando surgiu o momento do genérico final, Manuel fixou o chão e anunciou derrotado:
- Temos um problema! A porra do filme está todo dobrado em alemão!

Este género cinematográfico não é dado a muitas falas e os gemidos não necessitam legendas, mas a verdade é que Palitos costumava traduzir as películas americanas, e o alemão era uma língua em desuso que ele não dominava. De imediato não se atrapalhou, e num sorriso triunfante exclamou de forma natural:
- Já sei! Inventamos os diálogos!
Reviram o filme segunda vez, mas desta feita com sonoras gargalhadas ao colocarem as legendas inventadas por eles, para as falas dobradas da estrela italiana que vociferava um alemão respirado e sensual.

Nunca se tinham divertido tanto na vida, nem nunca podiam ter imaginado construir uma história do princípio ao fim, sem perceberem uma palavra daquilo que estavam a ouvir. Faria roer de inveja a qualquer bom argumentista que se preze!

Não sendo um filme erudito, e não ficando bem a um distribuidor decente passar este género particular de cinema na sua zona de conforto, Manuel fez a estreia no Teatro Sá da Bandeira num tórrido domingo de verão, enquanto cedia os direitos de emissão ao seu homónimo nortenho para que estreasse no mítico Cinebolso em Lisboa…

Assim se fez uma parte da história cinéfila num pequeno escritório de Lisboa, onde nunca ninguém chegou a questionar a veracidade dos diálogos de um filme em que os diálogos são de facto um acessório.

Ainda hoje não sabemos o que a actriz precisava quando uma das falas se traduziu num "Dá-me forte com essa nabiça em forma de baguete rústica!" ou numa cena de apresentação alguém exclama sedutoramente "Ah, hoje temos churrasco da catagoria..".

Um deleite total...

Um grande abraço ao Sr.Manuel!


PS: história real, ficcionada pela teoria do fole

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

20 Euro 16


Prometi que chegaríamos de manhã, mas a noite anterior foi dura e só nos permitiu chegar depois de preparar os miúdos e retemperar forças com um almoço ligeiro. O dia estava fenomenal, o verão exibia-se no seu melhor, e corria electricidade no ar, numa comunhão que a pouco e pouco crescia em onda positiva. Bandeiras, cachecóis, cânticos e camisas da selecção, davam power a uma festa que antevíamos renhida.

Estávamos no aniversário da Sofia, que celebrámos na costa junto dos amigos, e assistimos ao jogo no bar de praia, já em paródia. Lembro-me que tínhamos uma mesa de dúzia e meia de franceses mesmo ao lado, pelo que se manteve uma picardia saudável durante todo o jogo.

Para começar, o nosso hino cantado de pé e com alma, logo desafiado pela marselhesa em tons mais suaves e menos testosterónico. Começamos bem, entrosamos, e estávamos a dar réplica a uma equipa que jogava com todos os trunfos em casa! O balde de água fria aconteceu quando o grande Cristiano Ronaldo sofreu uma entrada duríssima e teve de ser substituído! Que frustração para o nosso melhor jogador de todos os tempos em sair lesionado! Em não poder ajudar a equipa a vencer!! Ali, pensei que estava tudo comprometido. Os gauleses ganharam fôlego e começaram a dominar, quer em campo quer na cerveja bebida. Mas a malta não desiste e entoa cantares bélicos e clubísticos, bem como músicas do Clemente, Àgata e Trio Odemira, enquanto se roem as unhas de nervoso.
Perdemos a nossa estrela, mas o resto da equipa joga em clubes mundiais, caramba!!

Chegado o intervalo, metade da mesa de crianças e mulheres já não sentia a vibração da vitória e entretinha-se com banalidades desinteressadas do jogo. Foram quinze minutos a tentar superar aquele folhetim de tensão, convictos que a França também não tinha feito ainda nada para merecer ter golos. Levantar, espreguiçar as pernas e acelerar a imperial pedida ao balcão, antes que as equipas voltem ao relvado.

Curiosamente foi na entrada da segunda parte que tive a certeza que íamos ganhar! Ver o nosso capitão com a energia redobrada e a incentivar os seus colegas para dentro de campo era algo que mostrava a raça lusitana! Os nossos heróis davam luta e de certeza que tinham lido a teoria do fole no intervalo!

Aguenta, aguenta........Prolongamento!!! Até já nos via a ganhar os penaltis!

Que nervos, que emoção, bola à barra!! O semblante francês já não tem a confiança do início!
Vamos embora!!!

O nosso treinador da altura, Fernando Santos, tinha feito algumas substituições e a última tinha sido a entrada do sempre azarado e coxo do Éder! Mas ao contrário das outras vezes, senti que vinha com ganas e um querer fora do vulgar. Primeiro uma cabeçada em cheio que levava selo de baliza, mas quando já todos estávamos em silêncio a sofrer, como quem mantém níveis de ansiedade contida, Éder de fora de área saca de um tiro à Eusébio, metendo a bola no cantinho da baliza francesa!!!!!

Gooooooooooolllo!!!

Todo um país saltou!

Ainda hoje me lembro da sensação de alegria  que senti. Parecia que algo explodia do meu peito e umas molas nas pernas impulsionaram-me num salto quase tão atlético como o do Ronaldo! Que bomba!! Campeões da Europa!!!!! F#3”*%$!!!
Vou dizer outra vez: Campeões da Europa!!!

Depois disso já fomos outra vez Campeões várias vezes, mas nunca como esta em que todo um povo sofreu, em que todos os emigrantes sofreram, em que todas as nossas ex-colónias sofreram e rejubilaram de alegria por essa vitória. Sabe tão bem ganhar e levanta a moral de uma maneira tão positiva, que Portugal mereceu.

Passamos a fase de grupos com três empates e foi a partir daí que me convenci da vitória. Diziam que jogávamos mal, sem garra, sem futebol bonito, mas era tudo inveja de não apreciar a organização, o rigor, o espírito de equipa, a vontade de ganhar com inteligência. Para mim o exemplo mais marcante e determinante nesse caminho foi a vitória sobre a Hungria. A força que tivemos para empatar três vezes, quando estivemos a perder por três vezes no mesmo jogo, é de valor!! A rotação dos jogadores, a confiança do treinador, a serenidade de toda a equipa. Que fenómeno!

Foi aqui que o país deu a reviravolta mental e começou a acreditar em si, no seu povo, nas suas gentes e nas suas potencialidades.
Já éramos os maiores na simpatia, no trabalho, nos afectos, nos relacionamentos, nas vitórias aqui e ali, mas agora passados trinta anos, somos isso e muito mais.

Sentimos que afinal uma nação é isto. Um conjunto de pessoas que se reúnem em torno de um objectivo, com trabalho, com perseverança, com garra, com resiliência, com patriotismo!

Aquela vitória foi tão empolgante e sofrida, que arrisco dizer ter sido das emoções mais fortes que já tive. Bem sei que de lá pra cá já ganhamos três vezes o campeonato da Europa e duas o campeonato do mundo, mas aquela primeira vez foi mesmo emocionante. Dizem que a primeira vez é sempre especial e aquela foi! Trinta anos depois e mesmo assim aquela foi a vitória mais marcante.

Mas a final daquele longínquo Euro 2016 foi mesmo memorável! Assim muito à distância, ainda consigo sentir a alegria enorme do momento.

De um momento que se tornou eterno e histórico!

Viva Portugal!!

Viva!

 

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

A inspiração

Pode-se estar umas horas, uns dias, uns meses, até anos sem ela, mas quando aparece funciona como uma mola que desengatilha o fluxo de criatividade do pintor, do compositor, do coreógrafo, do escritor, ou de todos aqueles que a necessitam.

Uma das características que muito determina um artista é a inspiração. Sem ela nada funciona e corre-se o risco de repetir ou inventar algo já experienciado ou vivido.

Afastar as nuvens que encobrem os momentos de monotonia, é muitas vezes tarefa simples que fazemos reforçando o vento, e noutras aparece de forma tão simplória como se tivesse acabado de dobrar a esquina de mãos nos bolsos.
É curioso que a inspiração fisiológica seja o movimento de entrada de ar dentro da via aérea, enquanto a inspiração filosófica se transmita exatamente pela via contrária, acontecendo de dentro para fora. Deveríamos considerá-la uma expiração e não uma inspiração!
Mas neste jogo de palavras, a acções inspiradoras vêem-se reflectidas de várias componentes que encerram muita da nossa alma. A sabedoria, a sensibilidade, a(s) experiência(s), a influência, a necessidade, o engenho, os sentidos, os sentimentos, e até os empurrões aditivos catapultam os pensamentos criativos.
Tenho por certo que nasce muito do trabalho, mas também da capacidade do eu em criar e reinventar algo de novo. As ideias não brotam porque sim, mas progridem porque alguém pensou nelas, alguém se dedicou a elas. Outras vezes acontecem ocasionalmente como se do nada viessem, e algumas até nada merecem de tão pouco inspirado que foi o desenrolar da germinação.
Pode ser um processo tão rápido como a inspiração de uma jogada fabulosa do Ronaldo, ou uma inspiração frutada que permite a descoberta da lei da gravidade, ou um discurso flamejante e emocionado de um orador, ou uma prosa versada na beleza das palavras, ou uma coreografia que rompe com a estática e estética do movimento saturado por outros. Toda a criação precisa de inspiração!
Os génios precisam de inspiração e ninguém sabe qual é a fonte certa. Os pais podem ser uma inspiração, a arte pode ela mesma servir de inspiração, o outro pode servir de inspiração, o ambiente pode propiciar a inspiração, e há até quem recorra a drogas para que lhe desça a inspiração que muitas vezes tarda em aparecer. Não se bebe, não se fuma, não se injeta, simplesmente aparece, como as teorias do fole que brotam espaçadamente conforme a ventania do autor.
Por outro lado, quanto mais nos aplicarmos num tema, mais binómios tentativa-erro vão aparecer, aprimorando a obra ao ponto de podermos desencadear um acto de inspiração memorável, mudando o rumo e criando muitas vezes uma obra-prima.
Também é certo que quanto mais lermos, quanto mais estudarmos, quanto mais praticarmos, quando no fundo mais nos munirmos de informação e de variabilidade de informação, mais as nossas circunvalações terão capacidade para misturar o conhecimento e daí partir para plataformas de genialidade que podem culminar numa obra perfeita.
Esta base de sustentação que nos serve de suporte ao essencial daquilo que vamos alimentar, será mais forte quanto mais conteúdos tiver. E sem ela é impossível concretizar acções. Sem saber ler e escrever é impossível conceber uma narrativa, sem conhecer a bioquímica é impossível inventar novas moléculas, só com saber trautear não se erguem sinfonias, sem sementes de conhecimento não se cultivam campos de saber.
Depois virá a diversificação e amplificação daquilo que já dominámos, permitindo-nos alargar horizontes, cruzar várias genéticas ou aprimorar canais com inspirações que lhe dão uma dimensão inexistente até ali. Quanto mais mundo virmos, ouvirmos e vivenciarmos, maior e melhor será tudo aquilo que criamos. Quanto mais knowledge, mais fácil e rica será a nossa inspiração.
Não sei se vem da razão ou do coração. Sabemos que os neurónios desempenham um papel importantíssimo na interligação e amplificação da rede, e no simplismo desta razão tão científica podemos desaguar no facilitismo de que tudo é razão e nada é coração. Mas certo é, que ainda ninguém conseguiu explicar onde fica a alma, onde fica o belo, onde fica o arrebato de inspiração. Os extremos de depressão ou de mania encaixados no rótulo de coração, será que saem em actos de genialidade explodindo em forma de escrita, música ou dança, ou será que têm um racional conciso e molecular?
Não sabemos..
Ainda...
Nestes mundos, o conhecimento do desconhecido é enorme, pelo que desejo que a inspiração nunca nos abandone!
Um abraço



sexta-feira, 16 de setembro de 2016

O Campeão!

Os idos anos oitenta lembram-me tempos de felicidade e despreocupações. Uma infância feliz vivida numa ilha perfeita, com uma família perfeita e com amigos perfeitos.

Na altura em que andava na minha saudosa Escola Primária da Carreira e sob a batuta do enorme (em tamanho e coração) Professor Bráz, tenho na minha memória um amigo de infância.

Pertencia àquele grupo de amigos mais próximo de um núcleo de afinidades infantis instintivas, que vinha aos arraiais lá em casa, que cruzava a mesma postura de vida, que jogava à bola e corria como uma flecha para todo o lado.

Lembro-me dos aniversários na Quinta Deão onde morava, dos pais que não tinham sotaque madeirense, dos dois irmãos mais buzicas que ainda não eram gente, e de um outro mais velho que impunha respeito porque se calhar já era quase adulto.

O João era um miúdo sempre alegre, bem-disposto e com um sorriso que denunciava a sua pureza e transparência de espírito. Em permanente actividade, dava a ideia que estava efectivamente a correr para todo o lado. Eu que corria bastante rápido e veloz na altura, via-me muitas vezes aflito para lhe ganhar uma disputa para a qual estava sempre pronto a arrancar!
Ainda continuamos colegas na Escola do Batalhão, antigo quartel no Funchal, onde me recordo dos circuitos de corrida na "apanhada". Aquele salto lá ao fundo, antes do túnel por baixo das escadas em que deslizávamos por debaixo do varão do muro, era sempre onde ganhava avanço! Fisicamente era muito ágil e de uma destreza fora do comum.

Já na altura o João tinha a "pancada" do windsurf! Um desporto desconhecido que juntava uma prancha com uma vela. Sei que tinha também um irmão mais velho que praticava a modalidade, mas o João ganhava no empenho e dedicação. O seu rosto iluminava-se quando falava do oceano, do vento, das ondas, do tempo, da prancha, da retranca, do mastro e de tudo aquilo que tivesse a ver com o velejar.

Em todos os momentos tentava arranjar uma janela de tempo e escapulir-se para o seu refúgio de imensidão que era o mar, mas as regras escolares determinavam que o período estabelecido para as aulas fosse de 50 minutos. Se o professor daquela disciplina não aparecesse nos primeiros 10 minutos, soava na escola a sineta de "toque de feriado", o que queria dizer que não teríamos aula. Enquanto íamos todos contentes jogar à bola ou às corridas, o João ia para o porto do Funchal, sacava a prancha, surfava meia hora no mar e voltava a tempo da aula seguinte!

Só assim se fazem campeões!

Desde então acompanho a sua carreira pelas notícias e fico contente em pensar que aquela dedicação e gosto tiveram as suas medalhas. Fico contente porque olhando para aquelas crianças de então, o João teve a capacidade e o discernimento de nunca se desviar daquilo que lhe dava mais gozo fazer. Não se limitou a isso, mas mostrou que é da força de vontade e da perseverança que alcançamos metas sobre metas, e que devemos ter essa atitude em tudo aquilo que nos propomos fazer.

Obviamente que não terá sido um mar de rosas, que com certeza abdicou de muitas coisas, de muita gente, de muitas vidas, mas os prémios foram uma justa e merecida recompensa. Estou certo até, que a verdadeira recompensa não são as taças ou as medalhas arrecadadas, mas sim todos os desafios em que se superou verdadeiramente. E a meu ver, a derradeira vitória será mesmo olhar para trás e sentir que fez sempre aquilo que com gosto lhe deu mais prazer.

Mesmo antes de o saber, afirmava que seria uma injustiça se o João não fosse o porta-estandarte da comitiva aos jogos olímpicos do Rio de Janeiro. É um feito a nível mundial o facto de um atleta qualificar-se sete vezes consecutivas para a prova rainha de todos os desportos, e esta escolha foi um acto de justiça para alguém que viveu e vive a sua vida em prol de um caminho.

Não sei se o destino já o traçou para os próximos anos, mas acredito que o arrecadar de um experiência como esta, plena de sucessos e vivências desportivas ímpares, só o poderá guiar na senda de um percurso sempre ligado ao desporto, à competição e a algo que percebi ser já indissociável: ao Mar!

Fica aqui a humilde vénia desta Teoria do fole…

Um abraço, parabéns, boa sorte e até breve João!

João Rodrigues: velejador com sete presenças consecutivas em Jogos Olímpicos (Barcelona 1992; Atlanta 1996; Sydney 2000; Atenas 2004; Pequim 2008; Londres 2012; Rio 2016), várias medalhas e taças no palmarés, inclusivé Campeão Mundial de Windsurf.



terça-feira, 26 de abril de 2016

Reality-Show

O programa abriu com as imagens da agressão do musculado Rúben ao fininho Gualter, depois de este ter descoberto que Andreia tinha comentado a investida de Jéssica ao namorado ocasional de Rubina. Estas imagens foram repetidas em vários dos noticiários televisivos da cadeia em questão, fazendo-se directos com os familiares dos envolvidos e organizando-se painéis de comentadores de tal escândalo.
Assim vai o nosso país….
Nesta mancha de informação diária que nos bombardeia com o mau, o sofrível, e por vezes o bom, revela-se constrangedor assistir a estes chamados “Reality Shows”. Não consigo perceber como é possível tamanha aberração, e penso que deveria ser objecto de sério estudo sócio-psico-antropológico!
Aqui há uns anos, eu próprio me detinha a apreciar aquele laboratório humano do "Big Brother". Aquela atracção de poder espiar e analisar as reacções de pessoas que aprendemos a conhecer através da televisão.
Sem nunca ter tido contacto com elas, todos podíamos tecer juízos de valor ou emitir comentários fundamentados acerca de uma ou outra situação, como se fôssemos amigos de longa data.
Mas analisando retrospectivamente este comportamento, realizo que me conforto na justificação da análise psicológica como uma das razões para visualizar horas de directos e de pequenos escândalos quotidianos, que fariam corar de vergonha qualquer poluto cidadão deste mundo dito normal.
Mas até aqui tudo bem. A Malta divertia-se a comentar as actividades mundanas como se de um zoológico se tratasse, ou fazia de conta que estava a ver as cenas da vida selvagem…mas em humanos! A novidade acabaria e tudo não passaria de uma experiência televisiva de puro entretenimento. Enganámo-nos! Para além daquele, houve ainda um II, um III, um IV, e ainda um de celebridades!! Só que no apuramento da espécie existe sempre um refinamento e uma evolução, que neste caso se traduziu em séries cada vez mais elaboradas e com mais regras, juntamente com concorrentes cada vez mais rascas.
O modelo de sucesso foi sucessivamente replicado, e os seus shares assentaram numa lógica de paternalismo português (vou ver, para perceber como posso ajudar o próximo) misturado com gosto mórbido de intrometimento (tudo a opinar sobre o que quer que seja) e voyeurismo social (tentar perceber se a Cynthia abocanhou o Celso e em que parte - do programa, claro...)
Estes são os verdadeiros motores das audiências!
Personalidades narcísicas e egocêntricas centradas no culto da admiração e da imagem, QIs limitados e falhas no seu desenvolvimento base, pontapés livres na gramática e na sintaxe, culminando com delírios de grandeza por aparecer em televisão: "Os portugueses sabem oquiéqueeupenso!". Como se os reais portugueses se importassem com o que a ralé portuguesa com tempo de antena pensa…
São horas e horas de entulho vazio de conteúdo, empacotado em directos e em galas de horário nobre, com quilos de silicone cobertos de lantejoulas, vestidos descapotáveis e dentes alinhados em sorrisos perfeitos. Cada vez que sai um concorrente da gaiola dourada, é aplaudido em pé com uma deferência e homenagem, que faria no mínimo corar de vergonha qualquer Nobel deste mundo.
Louras turbinadas, machos insuflados, tias queques, artistas em decadência, pessoas indeterminadas, bipolares que ainda não o sabem, preenchem um espaço televisivo que até chega a abrir noticiários. Se dizemos que isto é bom hoje, qual será o nosso referencial amanhã...?
E é aqui que surge um outro ingrediente na fórmula da questão: se estes contextos são projectados pela televisão, ampliados pela imprensa escrita e pelo jornalismo de pacotilha, desde logo são assumidos como relevantes e validados de "relevantes". Será que uma imprensa credível, responsável e formativa se torna fidedigna de tudo o resto que emana? Duvido, mas esta será segura matéria de análise numa outra sessão da teoria do fole…
Não vou bater mais no ceguinho, ou neste caso na cegueira das celebridades e da comunicação social. Por uma questão muito simples: aqui falta o terceiro e mais importante elemento desta tríade maquiavelicamente perturbada: o telespectador!
Atribuindo um desconto mediático aos intervenientes mais directos desta equação, é enigmático pensar nas pessoas que acompanham este tipo de programas televisivos. Assusta pensar quem são as cabeças que assistem, compram revistas e pesquisam na net factos relacionados com tudo o que gravita à volta disto. É perigoso para um país com este género de programas que a sua população se entusiasme com tão pouco neurónio junto. Devia haver um serviço público de cada uma das emissoras, que permitisse sancionar qualquer tentativa de emergência de um reality-show. Até porque "reality" nem sempre se coaduna com a palavra "show"...
Devíamos dar mais importância à saúde mental em termos populacionais! Sabendo de antemão impossível que cada um de nós tenha um psicólogo à cabeceira para nos demover da tentação degradante de acompanhar estes bocados televisivos, seria essencial canalizar uma política de controlo e validação desta grelha de programas. Este é um dos caminhos que devemos seguir, e é este o tipo de orientação que queremos ensinar aos nossos filhos para que lhes sirva de guia. Para que eles possam ser influenciados pelo lado positivo das teorias do fole, não resvalando para a mediania e crescendo de forma salutar.
Cabe-nos por isso colocar um travão à disseminação em bola de neve de fenómenos como este, não só para protecção dos intervenientes, mas também para resguardo das mentes que estão em desenvolvimento. Sou a favor dos exemplos positivos de forma proactiva, porque já bastam muitas vezes os desígnios infelizes que nos fazem experienciar o menos bom de forma imprevista e não invocada.
Por isso, de cada vez que alguém rondar a tentação de um reality-show, podem fazer como eu faço com o meu filho: Sempre que vamos a algum lado, ele pergunta-me se há lá alguém do seu tamanho para poder brincar. Se eventualmente alguém quiser entrar num programa desses respondam-lhes como eu num tom irónico:
- Não filho. Ali não há ninguém do nosso tamanho...
Dêmos meia-volta e volvamos!
Um abc