sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Trepo


Vivia em Arroios desde que tinha chegado a Lisboa. Ali foi parar quando desembarcou num país que pouco se parou no seu passaporte. Abriram, olharam para a fotografia quadriculada, confirmaram as feições, carimbo vermelho da República, e nem um obrigado. Como autómatos, limitaram-se a reconhecer o trâmite da legalidade.

Arranjou um quarto numa zona onde os gemidos faziam parte da venda ambulante de carícias de adultos, e onde homens compravam um cantinho de amor. Começou por trabalhar nas obras que lhe davam bom sustento para manter a vida de homem vulgar, gastando em tabaco, bebida e nas vizinhas dos gemidos. 

Depressa resolveu mudar a vida muito vulgar, e começou por lavar pratos no restaurante do senhor Abel. Ficava na baixa, e era um daqueles estabelecimentos em que os empregados se vestiam de calça preta, camisa branca, colete preto e lacinho à moda francesa. Vinicius, como estava sempre a lavar pratos, espreitava quando podia pela janela da cozinha para a sala cheia de veludos e cetins, imaginando-se vestido de lacinho dourado a comandar a sua tropa de empregados de mesa.

Apesar de naquela altura se começar a sentir muito cansado ao longo do dia e das semanas, com febres que iam e vinham, começou a habituar-se a que aquilo fosse normal. Ao fim de alguns meses passou-lhe, e embora o seu cérebro tivesse ficado mais lento sem perceber porquê, até foi promovido para ajudante de cozinha categoria B. Isso implicava que teria de transportar todos os pedidos recém-feitos para o famoso balcão de recolha dos empregados de mesa. Aí começou a perceber que a sua grande mais valia eram os pratos quentes e todos os tachos com uma temperatura acima da média. Enquanto todos os outros ficavam a soprar nos dedos com o escaldão, Vinicius pegava em tudo sem o menor esgar de dor! Parecia o super-herói das travessas!

Este pormenor, fez com que o chefe de sala reparasse nele e na sua performance, pelo que num mês passou para a sala de refeições. Aquele foi um dos dias mais felizes da sua vida, se não contarmos com o dia em que o seu pai o levou ao futebol. 
Recebeu a calça preta, o colete preto, a camisa branca imaculada e o famoso lacinho preto, juntamente com umas notas extra para comprar uns sapatos pretos que se moldassem ao pé. Ficou tão contente que naquela noite arranjou não uma, mas duas companheiras de gemidos que o deixaram literalmente de rastos. Já não era tão novo assim e desde que a mulher falecera de tuberculose ainda jovem, a sua vida de amores fazia-se por pagamentos.

O restaurante recebia clientes da alta sociedade e era conotado com o partido no poder, pelo que depois de umas pequenas instruções de como servir e de como fazer um pouco de etiqueta com os comensais, depressa se tornou num eficiente empregado. O emigrante tinha dourado a sua pílula de sucesso, e ganhou até um tique involuntário de um abanar afirmativo de cabeça que acabou por se tornar permanente. Independentemente de lhe pedirem o que quer que fosse, estava num sim repetido.

Ao fim de algum tempo estava muito eficaz na sua prestação e andava entre mesas com um porte altivo e militar, como se marchasse carregando nos calcanhares e lançando as pernas prá frente em passadas muito abertas. Carregava travessas quentes e pratos a escaldar, coisa que os outros empregados não faziam, permitindo que a comida chegasse às mesas ainda a fumegar. Era um portento de serventia!

A senhora Corte-Real, almoçava todos os dias na mesma mesa e à mesma hora, fascinando-se com o serviço de Vinicius. O seu marido era diplomata e na maioria das vezes estava em missão fora do país,  pelo que se tinha habituado a fazer as refeições fora. Aquele restaurante de luxo era quase uma cantina, onde se sentia em casa e onde os empregados lhe faziam todos os mimos.
-Bom dia Madame Corte Real! Hoje vem muito bonita! Dizia-lhe o porteiro com um levantar do chapéu
-Deixe-me pendurar o seu casaco no bengaleiro- dizia-lhe afável o chefe de sala
-Hoje guardamos-lhe aquela fatia do seu bolo preferido-sussurrava-lhe Vinicius.
Vestia-se de forma impecável, os melhores fatos de alta-costura, o perfume mais cheiroso, mas almoçava sempre sozinha, sem uma amiga, sem um familiar, sem ninguém.
Tinha um carinho especial por Vinicius e gostava muito de falar com quem lhe ouvia o que tinha para dizer e desabafar. Ele chegava naquela passada patética e naquele abanar de cabeça, com o guardanapo dobrado sobre o antebraço,  curvando o tronco em sinal de deferência:
-Hoje temos faisão com arroz de trufas e um consommé de aboborinha, Madame! Penso que vai adorar!
Nesse dia reparou que Vinicius tinha uma ferida na mão esquerda e perguntou:
-Aleijou-se na cozinha Vinícius?
-Foi a levar uma travessa a ferver para uma das mesas, Madame. Agora se fico muito tempo com a travessa na mão, queimo-a. Mas não me dói nada, não se preocupe. Tenho muitas dores é nas canelas e incomodam-me muito estas bolinhas que me aparecem debaixo da pele, mas nada de importante-Disse isto com um sorriso conformado enquanto se retirava.

Corte-Real estranhou muito e ficou a pensar que não seria normal, pelo que decidiu marcar-lhe uma consulta. Tratou de tudo nessa tarde, e na manhã seguinte obrigou o pobre coitado a estar na baixa de manhã cedo com um seu amigo que tinha consultório ali por perto. Fez questão de o acompanhar mas não entrou no gabinete, não fossem as más-línguas congeminar tortuosos pensamentos pecaminosos entre os dois.

O Dr.Almeida era um médico experiente, com uma carteira de doentes imensa, que tinha trabalhado muitos anos em África, tendo inclusive recebido uma medalha de mérito do Governador de Lourenço Marques. Assim que viu entrar Vinicius naquele andar típico e o abanar afirmativo de cabeça, franziu o sobrolho como quem cheira a doença. 
-Sente-se meu caro. Em que posso ajudá-lo?
Vinicius sentiu que podia abrir a sua alma e expor figuradamente os seus órgãos a tão distinto médico, pelo que não se coibiu de contar a sua vida de fio a pavio, sem omitir nenhuma parte mesmo que íntima.


O Dr.Almeida, especialista em doenças sistémicas, infecto-contagiosas, venéreas e do foro neuroendócrino, ouviu atentamente dirigindo o interrogatório habilmente, medindo-lhe o pulso, palpando-lhe as ínguas, auscultando os sopros, diga 33, adivinhando os órgãos internos com as finas mãos e o frio do estetoscópio…
Ouviu, ouviu, ouviu e falou pouco, concluindo de forma vitoriosa:
-Da avaliação que lhe faço nesta anamnese e exame objectivo exaustivo, concluo que o meu amigo só pode ter uma doença que se enquadre: Sífilis Terciária! Uma clássica tabes dorsalis,  as gomas sifilíticas, provável aneurisma da aorta, enfim, precisamos só de confirmação laboratorial para começar o tratamento! Não lhe garanto que fique como era, mas não vai piorar!


Saiu dali cabisbaixo, derrotado por perceber que tudo aquilo com que lutava se relacionava com uma doença. Mas aceitou, agradeceu à Madame o cuidado, e encarou a fatalidade como uma oportunidade de continuar a sua vida. A vida que escolheu.
Vinicius ainda hoje, e ao fim de 20 anos, continua a ser o melhor empregado de mesa daquele restaurante!
Assim foi…



quinta-feira, 26 de julho de 2018

A Comitiva

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Talvez a ressaca da primeira tivesse deixado más memórias. Talvez na altura não quiséssemos confusão. Talvez lhe chamassem cobardia. Mas o que é certo é que Portugal continuava fora da segunda grande guerra. No meio de espiões, refugiados, exilados, foragidos e alguns românticos, as poeiras da guerra chegavam ao país de muitas formas e feitios. Embora naquele cantinho do Alentejo se estivesse como se o paraíso ali fizesse plantão.

Todos tinham adquirido o hábito de ouvir religiosamente o noticiário da BBC, onde os miúdos seguiam as peripécias dos aliados e dos nazis como se um filme de aventuras se tratasse. Saiam depois para a rua, onde brincavam ao pião, às corridas, aos soldados, à bola de trapos, a espreitar os namorados escondidos das irmãs. 
Aquele seria uma dia igual aos outros, onde Teodoro se imaginava destruindo os tanques inimigos com uma pistola de madeira e uma fisga que lançava projécteis flamejantes. Divertia-se assim com os amigos, quando próximo da praia ouve um rugido ensurdecedor a sobrevoá-los! Eram 4 aeronaves da Luftwaffe, a temível força aérea nazi que por vezes surgia sobrevoando os céus ibéricos, com incursões regulares de controlo e vigilância da entrada do estreito de Gibraltar. Voavam a baixa altitude e vinham ao longo da costa, ficando os miúdos no topo da arriba quase ao mesmo nível daquela trajectória. Eram 4 assustadores caças Messerschmitt Bf109, muito utilizados e aperfeiçoados durante a sua aparição na guerra civil espanhola.

Estavam todos de boca aberta e espantados com aquela visão, mas sobretudo com o rugir daqueles potentes motores, quando um outro barulho se sobrepôs. Perpendicularmente e vindos do mar, surgiram 3 caças da Royal Air Force. Três Spitfire ingleses que vinham já a descarregar munição sobre os aviões alemães! O coração de Teodoro batia com tanta força que quase abafava o barulho que as rajadas de metralhadora cuspiam. Deitaram-se todos no chão, e puderam ver que um Me109 tinha sido atingido deixando um rasto de fumo negro, ao mesmo tempo que a distância lhes permitia ver o rosto de pânico dos pilotos alemães. Caiu a pique, despenhando-se logo a seguir à arriba e erguendo-se uma coluna de restos de avião pelo ar. Os outros caças trocaram fogo errático pelo espaço, digladiando-se por uns minutos em curvas e contracurvas apertadas,  e tão rápido como apareceram, assim de rápido desapareceram.

Por esta altura não eram só os miúdos alertados, mas toda a aldeia correu para o local da aeronave atingida. Quando os bombeiros lá chegaram, já todo o avião ardia em chamas e sem sinais de vida por perto. Nunca se tinha visto nada assim por aquelas paragens!

Na altura, Ernesto Cuco, o pai de Teodoro, era o representante do governo civil na província e autoridade máxima para aquelas questões que não têm incumbências em foro de ministério algum. Foi ele quem tratou de todos os ofícios e oficiosas do salvamento e rescaldo. Uma das imagens que ficou gravada naquela criança de 10 anos, foi ver o seu pai coordenando e ajudando a subida daqueles quatro corpos carbonizados arriba acima, até a capela da aldeia. 
Ernesto Cuco assumiu a liderança do acontecimento, uma vez que estavam todos um pouco atordoados e sem saber o que fazer. 

A primeira coisa que fez foi enviar um telegrama urgente para a metrópole a pedir instruções sobre que tratamento dar à crise, pois tratava-se de militares alemães e a questão era obviamente muito delicada. A resposta veio tão rápida como foi, e do próprio Presidente do Conselho de Ministros: “Que se enterrem os corpos com todas as honras e toda a dignidade que o nosso país demonstra!”
O seu coração começou a bater de forma acelerada, e levantou os olhos para o seu secretário dizendo entre dentes para si e para o outro:”Albino, vamos organizar um cortejo fúnebre como nunca se viu!”

Sediou o centro de operações na câmara municipal, enquanto o povo velava os bocados de carvão em forma de homens na capela local. Convocou o chefe dos bombeiros, o governador civil, o bispo, o representante da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, o comandante da zona militar, o chefe da GNR, o dono da funerária local, o chefe da filarmónica, e claro o presidente da câmara!
Todos chegaram afogueados e suados, não se sabe se do calor, se do peso da responsabilidade que sabiam ir-lhes calhar.
Ernesto Cuco foi peremptório e acutilante: "Meus senhores, todos sabem que temos militares alemães a quem devemos prestar um respeitoso e digno funeral, não obstante as convicções e ideologias de cada um, porque a nossa pátria assim o pede! E vamos ter um funeral memorável!"

Quatro dias depois, os corpos eram devidamente acondicionados em féretros de faia maciça  cobertos com a bandeira suástica, encontrando-se dispostos no altar-mor da capela e sendo velados por uma guarda de honra que veio da escola de cadetes da Armada. Cá fora espalhavam-se os militares portugueses detrás da igreja e os populares por debaixo das oliveiras, abrigando-se de um sol abrasador já àquela hora da manhã. Ernesto estava firme na entrada da capela, com o seu melhor fato, ladeado pelo presidente da câmara e o bispo. Assim que viram a nuvem de pó levantar-se no horizonte, deram indicação ao Coronel de infantaria que chegara o momento. Os pelotões que tinham vindo do quartel de Vendas Novas nos seus uniformes de gala, formaram alas de um lado e outro da capela numa esquadria perfeita.

Os três autocarros chegaram ao perímetro mas pararam a uma distância razoável. Deles saíram também dois pelotões de cerca cinquenta alemães cada, vestidos com o negro da Werhmacht, a poderosa força armada do terceiro Reich. Ali, no meio do Portugal profundo e neutro…
Formaram-se rapidamente à voz do comandante Hans Hümmel, e na frente ficaram dois porta-estandartes com uma enorme bandeira onde sobressaíam as cruzes suásticas, replicadas a vermelho nas braçadeiras dos militares. Do lado português engoliram em seco, e Ernesto avançou cumprimentando o embaixador alemão entretanto saído do seu Mercedes também negro.

A missa foi breve, pois não sabiam bem se isso não iria ferir susceptibilidades religiosas, mas em compensação a banda filarmónica tocou alguns requiems de compositores alemães. O cortejo abriu com dois porta estandartes, um com a bandeira nacional e outro com a bandeira alemã, seguido pelo bispo e o clero, as urnas com um pelotão alemão à frente e outro atrás, o ministro do interior alemão e altas patentes alemãs, o embaixador, o ministro da guerra português e seu ministério, generais e almirantes nacionais, os pelotões de infantaria, entidades públicas locais, Ernesto Cuco, a banda filarmónica, e a fechar a comitiva todo o povo da aldeia e arredores em tons de luto com um cravo branco mostrando respeito. Estendiam-se serpenteando por uns bons 1500 metros, dando uma grandeza ao acontecimento como nunca antes vista, e deslizavam num silêncio tão sepulcral como digno da nobreza do gesto.

Chegados ao cemitério, dispuseram-se em redor dos sete buracos já escavados no solo, enquanto os militares formavam várias filas em sentido. Puxaram das armas à voz única de comando, e lusitanos com alemães dispararam três salvas de tiros em direcção ao céu, enquanto os falecidos desciam cada um para o seu rectângulo reservado na terra. A banda tocou a marcha fúnebre de Siegfried, No crepúsculo dos Deuses, e rematou com o dramático Ich hatt'einen Kameraden do compositor Friedrich Silcher. Nem um sussurro de pássaro se ouviu, nem um lamento de carpideira, nem sequer o barulho de pensamento ruim no ar. Homens e mulheres unidos na dor da perda.

Foi assim naquela tarde de 27 de maio de 1943, em que Ernesto Cuco como um cidadão comum se empenhou em cuidar da humanidade, dignificando todo um povo, e dando esperança à compreensão entre os homens!

Teodoro tinha crescido e feito vida. Quando seu pai adoeceu de verdadeira velhice, encontrou no sótão a medalha da Grã Cruz da Ordem da Águia Alemã, com a cruz branca ladeada pelas águias em ouro sob as suásticas. Emoldurado estava também um diploma de agradecimento firmado em mão pelo próprio Adolf Hitler...
Aquilo que de soturno embebia a homenagem, escondia uma nobre e generosa atitude do povo português!
Assim continuemos…

Baseado em factos verídicos da batalha de Aljezur



sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Nota 20 em 10





Olá Francisco,
Escrevo-te estas simples linhas para que um dia estes conselhos possas recordar. Chegaste  à bela idade de 10 anos e terminaste uma grande fase da tua formação. Estes anos de escola primária foram muito importantes, pois esta é uma das bases que levas da tua educação. Aquilo que achas que é uma seca hoje, amanhã ser-te-á muito útil!
O esforço e a dedicação que colocamos em ti são para que cresças e sejas um adulto responsável, íntegro e trabalhador. 
Responsável, por ti e pelas atitudes que tomas. 
Íntegro, de bom coração e honesto.
Trabalhador, na medida em que te esforces sempre para fazer mais e melhor, independentemente dos resultados obtidos.
Os pais gostam sempre dos sucessos dos filhos, mas mais importante que a felicidade que nós temos nos teus sucessos, é a alegria que deves sentir quando os alcanças. Isso deve ser o mais motivador para que queiras dar o melhor do teu fundo, e assim saber que podes alcançar tudo na vida.
Mesmo se achares que as coisas são difíceis e não as consegues fazer, tenta. Tenta e volta a tentar. Porque só tentando é que sabes se consegues lá chegar. Não desistas de nada. Vais ter alguns desgostos e insucessos na tua vida, que por estranho que pareça, te vão fazer olhar para o mundo como um sítio onde nós podemos mudar o nosso destino e o nosso rumo. Faz parte do nosso crescimento. Sempre para o bem, e sempre com o sentimento de que fizemos tudo de consciência tranquila.
Deves ficar inchado de orgulho porque tiveste sempre boas notas, porque tu és música, porque as pessoas gostam de ti. Mas deves ficar ainda mais orgulhoso porque ajudas os outros, porque pensas nos outros, porque dás de ti genuinamente. E assim chegas mais longe.
Terminaste este ciclo no tempo contado, e estes anos de escola foram bons e felizes. Estás ao ritmo certo e ainda és uma criança, que vai crescendo como deve ser, etapa sobre etapa. Não tenhas pressa em nada, e nunca queiras atropelar-te a querer crescer muito depressa. Estás a ir muito bem. Vai descontraído e tranquilo.
Na tua vida precisas também de brincar. Brincar muito, rir muito, ler muito, falar muito com os teus amigos. Os telefones e ipads são giros e entretidos, podemos usá-los de vez em quando, mas mais importante que isso é falar com as pessoas, descansar a cabeça e não estar só focados num ecrã fechado. 
Outro conselho que te quero dar é que olhes muito e observes à tua volta. Tenta distinguir o bem do mal, o certo do errado. Ninguém nasce ensinado e tu ainda estás a aprender, assim como nós estamos sempre a aprender coisas contigo. Olha e vê! Olha os pássaros e vê a liberdade. Olha a natureza e vê a generosidade. Olha a família e vê o amor. Olha os outros e vê como tu poderás ser. Olhar e ver!
Lembra-te sempre de uma coisa: o pai e a mãe vão estar sempre a ajudar-te para que sejas melhor pessoa, mas sobretudo para ser aquilo que queremos sejas sempre: Feliz!!!
Um beijinho deste pai que te ama infinitos!

“Sozinho podes ir muito rápido, mas acompanhado podes ir mais longe”



segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Bandeiras e Fronteiras


O estudo da história e das civilizações antigas traz-nos muitos ensinamentos e lições que fazem eco nas atitudes de hoje. Tudo se repete e tudo se volta a desenrolar num pressuposto de tábua rasa, mas que efectivamente é a cópia de alguma revolução fascista ou comunista que algures explodiu num qualquer canto do mundo.

Tudo porque a essência do homem é a mesma, com os seus egos, as suas traições, desejos de poder, de glória, de manipular o futuro, como se ganhar e perder com pessoas fosse um jogo de tabuleiro, onde saltar peças e comê-las se transforma num atropelo corriqueiro dos direitos humanos.
E se há verdades insofismáveis que perduram centenas de anos, há outras que pelo seu pouco valor intrínseco se perdem na inconsistência da sua existência, existindo ainda  as que evoluem dentro de uma génese matricial forte e duradoura.

Mas neste processo de fazer história, depreende-se que cada passo seguinte é num sentido ascendente das mais variadas vertentes sociais e humanas, que a cada passo que o homem avança se dignifica a pessoa e o grupo. Por isso começaram a aparecer os sistemas democráticos de gestão de comunidade, como sendo os sistemas mais equilibrados com a heterogeneidade dos homens que a constituem. E isso foi conseguido à custa de um papel cada vez mais importante do individual relativamente ao colectivo, o que visto de longe, se aproxima em teoria daquilo que será o mais justo e equitativo.

Na sociedade actual, o nível da democracia é directamente proporcional ao grau de exigência dos seus cidadãos. Se lutarem pelas suas convicções e as suas causas, encontrarão eco e ganharão relevância numa democracia sã, que lhes dará o espaço necessário para as aplicar.

O que hoje vemos na Catalunha é o reflexo dessa maturidade(?), de uma democracia que demorou décadas a construir no seio de uma Espanha que ganhou o seu caminho próprio, levantando o orgulho ferido de uma ainda memória recente da dura ditadura Franquista. Uma batalha que reconhecemos poder ser decalcada de um outro momento determinante nesta história dos poderes. 
Uma intenção que avançou como quem tira um bilhete de autocarro, anunciando simplesmente uma declaração que presumo eu não imaginaria as suas verdadeiras repercussões. 
Independentemente dos excessos que tenham sido cometidos e da violência sempre de condenar, o que aconteceu na Catalunha foi o eclodir do desconforto sentido por alguns, da apatia de muitos, e do aproveitamento enviesado de algumas personagens com perfis de líder. É nesta exploração e gestão dos humores individuais que reside a motivação de uma região que já tem identidade e características próprias, mas que questionamos ser suficiente para a sua própria afirmação.

Ao longo da sua existência, esteve sob as bandeiras e os caprichos de gregos, cartagineses, romanos, visigodos, árabes, franceses, espanhóis, e todos eles reclamaram hegemonia própria. Não sejamos redutores o suficiente para afirmar que um país se constrói porque tem uma bandeira, um idioma ou uma fronteira com mais de x anos. Pode começar por aí, mas todo o processo tem de ser guiado com sabedoria e engenho político. Estas revoluções em democracias consolidadas, não podem nunca ser intempestivas nem disruptivas, porque criam uma tal instabilidade e uma perturbação daquilo que é um quotidiano diria eu sereno, que colocam todos os intervenientes e as suas populações numa posição de levianos extremismos. E a partir daqui é muito fácil resvalar para o caos e para as intransigências sob o chapéu da argumentação da liberdade e convicção dos povos.

Respeito obviamente as vontades das pessoas, e provavelmente por ignorância não percebo este afunilar de decisão numa independência abrupta e mal preparada. Concebo que a Catalunha tenha em perspectiva um futuro sob desígnio próprio, se assim for o desejo da sua maioria, mas também compreendo uma Espanha que vê uma disrupção da sua identidade comum. Às duas partes se pede diálogo e abertura de mentalidades, para que se percebam quais os verdadeiros interesses e vontades das pessoas e não se esgrimam bandeiras políticas que bastas vezes são ocas daquilo que é a vida no dia-a-dia. Colocam-se desnecessariamente irmãos em disputa, famílias em conflito, empresas em pânico, alimentam-se inseguranças, deflagram atritos que nunca existiram à mesma mesa de casa. Abriram-se feridas nesta sociedade que com muita dificuldade irão sarar, e desconhecemos quais as suas reais consequências num futuro próximo.

E talvez mais abrangente que isto, é que a Europa se ressente destes esgares de regionalismo, na medida em que a própria Europa se tenta reerguer sob uma batuta de unificação e uniformização, mantendo as diferenças e identidades locais e resistindo a afogar-se num contexto de globalização mundial.

As revoluções do mundo moderno não podem ser geoestratégicas ou políticas, e muito menos de afirmação masturbatória. Têm de ser revoluções sociais e humanitárias, que movam consciências e consolidem aquilo que de mais valioso temos:o Planeta e o Homem.


Por esta ordem…

domingo, 18 de junho de 2017

Ciccio




Naquela altura os filmes iam e vinham com uma cadência que não é a de hoje. Nas grandes cidades podiam-se ver estreias mundiais, mas sempre com um atraso significativo relativamente ao que já tinha corrido mundo. A indústria americana encontrava-se no auge da produção mundial de filmes, e Hollywood confirma que é de facto a fábrica de sonhos.
Enquanto isso, um pequeno país na pontinha da Europa sobrevivia, acabado de sair de uma revolução que apesar de pacífica, ainda sofria das reminiscências de um poder opressor e silenciosamente tentador do controlo total.

Nestes idos anos 80, Manuel movia-se no mundo das artes e neste caso do cinema, como peixe dentro de água. Representava várias empresas de distribuição de filmes da Europa, e conseguia todas as películas em primeira mão que estreavam na metade sul de Portugal. Um seu outro amigo tinha tacitamente o acordo de representação para a metade acima do Tejo, pelo que assim, ambos mantinham a hegemonia do negócio e repartiam o país em dois, tal qual tratado de Tordesilhas em filme.

Para além de estrear em todas as salas de Lisboa e arredores, Manuel fazia muitas incursões na sua Renault 4L, que carregava com a máquina de projecção, a tela e todas as bobines de filmes da altura, para de aldeia em aldeia e de cidade em cidade, percorrer durante uma semana por mês aquele interior alentejano esquecido e vermelhíssimo...

Um dia estava no seu escritório, num primeiro andar da rua dos Fanqueiros, quando recebe um telefonema de um fiel fornecedor das novidades cinematográficas: tinha uma nova película que estava a fazer furor na Alemanha! Tratava-se da nova coqueluche europeia: a actriz ítalo-húngara de filmes pornográficos Ilona Staller, conhecida artisticamente como Cicciolina, sendo naquele tempo figura emergente numa Europa que cada vez se tornava mais liberal e libertina. Os seus filmes esgotavam salas, só para o seu fiel público admirar artes de performance e muitos malabarismos capazes de surpreender o mais incauto espectador....

Manuel ficou mesmo entusiasmado pelo furo, e tratou logo de dizer que sim, antes que a concorrência apanhasse aquela que seria a obra-prima do porno mundial. Não foi uma negociação fácil, porque o intermediário pretendia sacar um bom dinheiro, mas não se intimidou e conseguiu no final um preço. Não fosse ele um português dos quatro costados..

O filme viria do circuito alemão, mas a entrega teria de ser combinada clandestinamente em Espanha, onde o correio atravessaria as fronteiras desde a Alemanha para deixar a encomenda num local seguro.

Naquela noite de sábado estrelado nem dormira, tal era a excitação! Arrancou na 4L que já sabia o caminho para o Alentejo, contrariou-lhe a direcção dos caminhos que já conhecia, cruzando a fronteira espanhola por Vilar Formoso. Chegado à aldeia de Torrevieja del Pinar, seguiu as setas que indicavam igreja, como assim lhe tinham dito em Lisboa. Já passava da meia-noite e nem vivalma naquelas pedras que tinham testemunhos de séculos de intriga e guerras peninsulares.

Encontrou a porta da casa e bateu suavemente com os nós dos dedos três nervosas pancadas, abrindo-se uma janela na escuridão da noite, enquanto um corpo se esgueirava para perguntar num castelhano mal disposto:
- Pero quién coño llama a estas horas?!!
A voz não lhe saiu clarinha e fugiu trémula, mas foi suficiente para o convencer:
- Vengo a por la película....
Logo a janela se fechou e ouviu passos que desciam a escada, ao mesmo tempo que as luzes se iam acendendo pelo caminho. O homem era atarracado e rude, e as parótidas não deixavam mentir os seus hábitos alcoólicos.
Enquanto esperou por ele na sala, pensava em como iria passar a fronteira de volta com aquele material que levantava tanta suspeita..
O homem das parótidas, regressou com duas bobines enormes, que continham o filme do ano enrolado dentro duma caixa de metal resistente, sob um autocolante que dizia "Frágil", mas em bom alemão.
Escondeu uma bobine por baixo da roda suplente, e a outra por baixo do banco dos passageiros, mas a aquela hora o guarda fronteiriço apenas espreitou para dentro e lhe pediu um cigarro para a viagem. Ufa! Desta já se tinha livrado!

Chegado triunfante a Lisboa com o seu pequeno tesouro do momento, tratou de telefonar ao grande amigo Zeca Palito, para que este o ajudasse na preparação da montagem. Assim o chamavam porque em todos os cocktails e recepções em que se infiltrava, apenas comia o pastel de bacalhau e os croquetes com um palito. Nunca mais se livrou da fama, e ainda hoje traz no seu fato engomadinho um cartucho de palitos das melhores fábricas do norte. Conhecia as peripécias de Cicciolina e até tinha em tempos assistido a uma performance em directo da artista, quando passou pela cidadezinha austríaca de Lipzhagen, pelo que seria talvez o português com mais intimidade e à vontade com a actriz italiana. À vontade e à vontadinha...

Quando chegou à rua dos Fanqueiros, Manuel abriu-lhe a porta, sem sequer o cumprimentar e rosnou-lhe que viesse ajudar porque era verão e ele já suava de montar o projector..
Tirou o boné de imediato e ficou fascinado com as etiquetas que o material detinha. Um grande escrito à mão com o título do filme para que não restassem dúvidas: La conchiglia dei desideri, dirigido por Riccardo Schicchi (1983), era o primeiro filme a estrear em todo o Portugal, daquela  porno star Europeia...

Sentaram-se os dois em frente à imagem projectada na parede branca, apagaram as luzes e apenas ouviam a fita a deslizar com uma luz lateral intermitente sob as suas caras, enquanto apareciam os primeiros fotogramas. Uma música ambiente de orquestração barata dava o mote para as primeiras imagens duma pradaria onde se via uma rústica casa de montanha. A porta abre-se, e um grande plano da loura branquinha e lábios marcadamente vermelhos, mostra o olhar lascivo e ao mesmo tempo pueril, que denunciava tudo o que viria a se desenrolar naquele ambiente de exploração carnal. O decote pronunciado que caiu de repente ao fim de sete minutos de projecção, seria o fósforo que nunca mais apagaria a essência da história. O filme estava muitíssimo bem conseguido, quer do ponto de vista dos arrojados planos cinematográficos obtidos, mas quer também do enredo e dos personagens criados.

Visualizaram o filme até ao fim, não sem que lhes entumecessem os opíparos instrumentos em bastas ocasiões, mas quando surgiu o momento do genérico final, Manuel fixou o chão e anunciou derrotado:
- Temos um problema! A porra do filme está todo dobrado em alemão!

Este género cinematográfico não é dado a muitas falas e os gemidos não necessitam legendas, mas a verdade é que Palitos costumava traduzir as películas americanas, e o alemão era uma língua em desuso que ele não dominava. De imediato não se atrapalhou, e num sorriso triunfante exclamou de forma natural:
- Já sei! Inventamos os diálogos!
Reviram o filme segunda vez, mas desta feita com sonoras gargalhadas ao colocarem as legendas inventadas por eles, para as falas dobradas da estrela italiana que vociferava um alemão respirado e sensual.

Nunca se tinham divertido tanto na vida, nem nunca podiam ter imaginado construir uma história do princípio ao fim, sem perceberem uma palavra daquilo que estavam a ouvir. Faria roer de inveja a qualquer bom argumentista que se preze!

Não sendo um filme erudito, e não ficando bem a um distribuidor decente passar este género particular de cinema na sua zona de conforto, Manuel fez a estreia no Teatro Sá da Bandeira num tórrido domingo de verão, enquanto cedia os direitos de emissão ao seu homónimo nortenho para que estreasse no mítico Cinebolso em Lisboa…

Assim se fez uma parte da história cinéfila num pequeno escritório de Lisboa, onde nunca ninguém chegou a questionar a veracidade dos diálogos de um filme em que os diálogos são de facto um acessório.

Ainda hoje não sabemos o que a actriz precisava quando uma das falas se traduziu num "Dá-me forte com essa nabiça em forma de baguete rústica!" ou numa cena de apresentação alguém exclama sedutoramente "Ah, hoje temos churrasco da catagoria..".

Um deleite total...

Um grande abraço ao Sr.Manuel!


PS: história real, ficcionada pela teoria do fole

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

20 Euro 16


Prometi que chegaríamos de manhã, mas a noite anterior foi dura e só nos permitiu chegar depois de preparar os miúdos e retemperar forças com um almoço ligeiro. O dia estava fenomenal, o verão exibia-se no seu melhor, e corria electricidade no ar, numa comunhão que a pouco e pouco crescia em onda positiva. Bandeiras, cachecóis, cânticos e camisas da selecção, davam power a uma festa que antevíamos renhida.

Estávamos no aniversário da Sofia, que celebrámos na costa junto dos amigos, e assistimos ao jogo no bar de praia, já em paródia. Lembro-me que tínhamos uma mesa de dúzia e meia de franceses mesmo ao lado, pelo que se manteve uma picardia saudável durante todo o jogo.

Para começar, o nosso hino cantado de pé e com alma, logo desafiado pela marselhesa em tons mais suaves e menos testosterónico. Começamos bem, entrosamos, e estávamos a dar réplica a uma equipa que jogava com todos os trunfos em casa! O balde de água fria aconteceu quando o grande Cristiano Ronaldo sofreu uma entrada duríssima e teve de ser substituído! Que frustração para o nosso melhor jogador de todos os tempos em sair lesionado! Em não poder ajudar a equipa a vencer!! Ali, pensei que estava tudo comprometido. Os gauleses ganharam fôlego e começaram a dominar, quer em campo quer na cerveja bebida. Mas a malta não desiste e entoa cantares bélicos e clubísticos, bem como músicas do Clemente, Àgata e Trio Odemira, enquanto se roem as unhas de nervoso.
Perdemos a nossa estrela, mas o resto da equipa joga em clubes mundiais, caramba!!

Chegado o intervalo, metade da mesa de crianças e mulheres já não sentia a vibração da vitória e entretinha-se com banalidades desinteressadas do jogo. Foram quinze minutos a tentar superar aquele folhetim de tensão, convictos que a França também não tinha feito ainda nada para merecer ter golos. Levantar, espreguiçar as pernas e acelerar a imperial pedida ao balcão, antes que as equipas voltem ao relvado.

Curiosamente foi na entrada da segunda parte que tive a certeza que íamos ganhar! Ver o nosso capitão com a energia redobrada e a incentivar os seus colegas para dentro de campo era algo que mostrava a raça lusitana! Os nossos heróis davam luta e de certeza que tinham lido a teoria do fole no intervalo!

Aguenta, aguenta........Prolongamento!!! Até já nos via a ganhar os penaltis!

Que nervos, que emoção, bola à barra!! O semblante francês já não tem a confiança do início!
Vamos embora!!!

O nosso treinador da altura, Fernando Santos, tinha feito algumas substituições e a última tinha sido a entrada do sempre azarado e coxo do Éder! Mas ao contrário das outras vezes, senti que vinha com ganas e um querer fora do vulgar. Primeiro uma cabeçada em cheio que levava selo de baliza, mas quando já todos estávamos em silêncio a sofrer, como quem mantém níveis de ansiedade contida, Éder de fora de área saca de um tiro à Eusébio, metendo a bola no cantinho da baliza francesa!!!!!

Gooooooooooolllo!!!

Todo um país saltou!

Ainda hoje me lembro da sensação de alegria  que senti. Parecia que algo explodia do meu peito e umas molas nas pernas impulsionaram-me num salto quase tão atlético como o do Ronaldo! Que bomba!! Campeões da Europa!!!!! F#3”*%$!!!
Vou dizer outra vez: Campeões da Europa!!!

Depois disso já fomos outra vez Campeões várias vezes, mas nunca como esta em que todo um povo sofreu, em que todos os emigrantes sofreram, em que todas as nossas ex-colónias sofreram e rejubilaram de alegria por essa vitória. Sabe tão bem ganhar e levanta a moral de uma maneira tão positiva, que Portugal mereceu.

Passamos a fase de grupos com três empates e foi a partir daí que me convenci da vitória. Diziam que jogávamos mal, sem garra, sem futebol bonito, mas era tudo inveja de não apreciar a organização, o rigor, o espírito de equipa, a vontade de ganhar com inteligência. Para mim o exemplo mais marcante e determinante nesse caminho foi a vitória sobre a Hungria. A força que tivemos para empatar três vezes, quando estivemos a perder por três vezes no mesmo jogo, é de valor!! A rotação dos jogadores, a confiança do treinador, a serenidade de toda a equipa. Que fenómeno!

Foi aqui que o país deu a reviravolta mental e começou a acreditar em si, no seu povo, nas suas gentes e nas suas potencialidades.
Já éramos os maiores na simpatia, no trabalho, nos afectos, nos relacionamentos, nas vitórias aqui e ali, mas agora passados trinta anos, somos isso e muito mais.

Sentimos que afinal uma nação é isto. Um conjunto de pessoas que se reúnem em torno de um objectivo, com trabalho, com perseverança, com garra, com resiliência, com patriotismo!

Aquela vitória foi tão empolgante e sofrida, que arrisco dizer ter sido das emoções mais fortes que já tive. Bem sei que de lá pra cá já ganhamos três vezes o campeonato da Europa e duas o campeonato do mundo, mas aquela primeira vez foi mesmo emocionante. Dizem que a primeira vez é sempre especial e aquela foi! Trinta anos depois e mesmo assim aquela foi a vitória mais marcante.

Mas a final daquele longínquo Euro 2016 foi mesmo memorável! Assim muito à distância, ainda consigo sentir a alegria enorme do momento.

De um momento que se tornou eterno e histórico!

Viva Portugal!!

Viva!

 

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

A inspiração

Pode-se estar umas horas, uns dias, uns meses, até anos sem ela, mas quando aparece funciona como uma mola que desengatilha o fluxo de criatividade do pintor, do compositor, do coreógrafo, do escritor, ou de todos aqueles que a necessitam.

Uma das características que muito determina um artista é a inspiração. Sem ela nada funciona e corre-se o risco de repetir ou inventar algo já experienciado ou vivido.

Afastar as nuvens que encobrem os momentos de monotonia, é muitas vezes tarefa simples que fazemos reforçando o vento, e noutras aparece de forma tão simplória como se tivesse acabado de dobrar a esquina de mãos nos bolsos.
É curioso que a inspiração fisiológica seja o movimento de entrada de ar dentro da via aérea, enquanto a inspiração filosófica se transmita exatamente pela via contrária, acontecendo de dentro para fora. Deveríamos considerá-la uma expiração e não uma inspiração!
Mas neste jogo de palavras, a acções inspiradoras vêem-se reflectidas de várias componentes que encerram muita da nossa alma. A sabedoria, a sensibilidade, a(s) experiência(s), a influência, a necessidade, o engenho, os sentidos, os sentimentos, e até os empurrões aditivos catapultam os pensamentos criativos.
Tenho por certo que nasce muito do trabalho, mas também da capacidade do eu em criar e reinventar algo de novo. As ideias não brotam porque sim, mas progridem porque alguém pensou nelas, alguém se dedicou a elas. Outras vezes acontecem ocasionalmente como se do nada viessem, e algumas até nada merecem de tão pouco inspirado que foi o desenrolar da germinação.
Pode ser um processo tão rápido como a inspiração de uma jogada fabulosa do Ronaldo, ou uma inspiração frutada que permite a descoberta da lei da gravidade, ou um discurso flamejante e emocionado de um orador, ou uma prosa versada na beleza das palavras, ou uma coreografia que rompe com a estática e estética do movimento saturado por outros. Toda a criação precisa de inspiração!
Os génios precisam de inspiração e ninguém sabe qual é a fonte certa. Os pais podem ser uma inspiração, a arte pode ela mesma servir de inspiração, o outro pode servir de inspiração, o ambiente pode propiciar a inspiração, e há até quem recorra a drogas para que lhe desça a inspiração que muitas vezes tarda em aparecer. Não se bebe, não se fuma, não se injeta, simplesmente aparece, como as teorias do fole que brotam espaçadamente conforme a ventania do autor.
Por outro lado, quanto mais nos aplicarmos num tema, mais binómios tentativa-erro vão aparecer, aprimorando a obra ao ponto de podermos desencadear um acto de inspiração memorável, mudando o rumo e criando muitas vezes uma obra-prima.
Também é certo que quanto mais lermos, quanto mais estudarmos, quanto mais praticarmos, quando no fundo mais nos munirmos de informação e de variabilidade de informação, mais as nossas circunvalações terão capacidade para misturar o conhecimento e daí partir para plataformas de genialidade que podem culminar numa obra perfeita.
Esta base de sustentação que nos serve de suporte ao essencial daquilo que vamos alimentar, será mais forte quanto mais conteúdos tiver. E sem ela é impossível concretizar acções. Sem saber ler e escrever é impossível conceber uma narrativa, sem conhecer a bioquímica é impossível inventar novas moléculas, só com saber trautear não se erguem sinfonias, sem sementes de conhecimento não se cultivam campos de saber.
Depois virá a diversificação e amplificação daquilo que já dominámos, permitindo-nos alargar horizontes, cruzar várias genéticas ou aprimorar canais com inspirações que lhe dão uma dimensão inexistente até ali. Quanto mais mundo virmos, ouvirmos e vivenciarmos, maior e melhor será tudo aquilo que criamos. Quanto mais knowledge, mais fácil e rica será a nossa inspiração.
Não sei se vem da razão ou do coração. Sabemos que os neurónios desempenham um papel importantíssimo na interligação e amplificação da rede, e no simplismo desta razão tão científica podemos desaguar no facilitismo de que tudo é razão e nada é coração. Mas certo é, que ainda ninguém conseguiu explicar onde fica a alma, onde fica o belo, onde fica o arrebato de inspiração. Os extremos de depressão ou de mania encaixados no rótulo de coração, será que saem em actos de genialidade explodindo em forma de escrita, música ou dança, ou será que têm um racional conciso e molecular?
Não sabemos..
Ainda...
Nestes mundos, o conhecimento do desconhecido é enorme, pelo que desejo que a inspiração nunca nos abandone!
Um abraço