domingo, 18 de junho de 2017

Ciccio




Naquela altura os filmes iam e vinham com uma cadência que não é a de hoje. Nas grandes cidades podiam-se ver estreias mundiais, mas sempre com um atraso significativo relativamente ao que já tinha corrido mundo. A indústria americana encontrava-se no auge da produção mundial de filmes, e Hollywood confirma que é de facto a fábrica de sonhos.
Enquanto isso, um pequeno país na pontinha da Europa sobrevivia, acabado de sair de uma revolução que apesar de pacífica, ainda sofria das reminiscências de um poder opressor e silenciosamente tentador do controlo total.

Nestes idos anos 80, Manuel movia-se no mundo das artes e neste caso do cinema, como peixe dentro de água. Representava várias empresas de distribuição de filmes da Europa, e conseguia todas as películas em primeira mão que estreavam na metade sul de Portugal. Um seu outro amigo tinha tacitamente o acordo de representação para a metade acima do Tejo, pelo que assim, ambos mantinham a hegemonia do negócio e repartiam o país em dois, tal qual tratado de Tordesilhas em filme.

Para além de estrear em todas as salas de Lisboa e arredores, Manuel fazia muitas incursões na sua Renault 4L, que carregava com a máquina de projecção, a tela e todas as bobines de filmes da altura, para de aldeia em aldeia e de cidade em cidade, percorrer durante uma semana por mês aquele interior alentejano esquecido e vermelhíssimo...

Um dia estava no seu escritório, num primeiro andar da rua dos Fanqueiros, quando recebe um telefonema de um fiel fornecedor das novidades cinematográficas: tinha uma nova película que estava a fazer furor na Alemanha! Tratava-se da nova coqueluche europeia: a actriz ítalo-húngara de filmes pornográficos Ilona Staller, conhecida artisticamente como Cicciolina, sendo naquele tempo figura emergente numa Europa que cada vez se tornava mais liberal e libertina. Os seus filmes esgotavam salas, só para o seu fiel público admirar artes de performance e muitos malabarismos capazes de surpreender o mais incauto espectador....

Manuel ficou mesmo entusiasmado pelo furo, e tratou logo de dizer que sim, antes que a concorrência apanhasse aquela que seria a obra-prima do porno mundial. Não foi uma negociação fácil, porque o intermediário pretendia sacar um bom dinheiro, mas não se intimidou e conseguiu no final um preço. Não fosse ele um português dos quatro costados..

O filme viria do circuito alemão, mas a entrega teria de ser combinada clandestinamente em Espanha, onde o correio atravessaria as fronteiras desde a Alemanha para deixar a encomenda num local seguro.

Naquela noite de sábado estrelado nem dormira, tal era a excitação! Arrancou na 4L que já sabia o caminho para o Alentejo, contrariou-lhe a direcção dos caminhos que já conhecia, cruzando a fronteira espanhola por Vilar Formoso. Chegado à aldeia de Torrevieja del Pinar, seguiu as setas que indicavam igreja, como assim lhe tinham dito em Lisboa. Já passava da meia-noite e nem vivalma naquelas pedras que tinham testemunhos de séculos de intriga e guerras peninsulares.

Encontrou a porta da casa e bateu suavemente com os nós dos dedos três nervosas pancadas, abrindo-se uma janela na escuridão da noite, enquanto um corpo se esgueirava para perguntar num castelhano mal disposto:
- Pero quién coño llama a estas horas?!!
A voz não lhe saiu clarinha e fugiu trémula, mas foi suficiente para o convencer:
- Vengo a por la película....
Logo a janela se fechou e ouviu passos que desciam a escada, ao mesmo tempo que as luzes se iam acendendo pelo caminho. O homem era atarracado e rude, e as parótidas não deixavam mentir os seus hábitos alcoólicos.
Enquanto esperou por ele na sala, pensava em como iria passar a fronteira de volta com aquele material que levantava tanta suspeita..
O homem das parótidas, regressou com duas bobines enormes, que continham o filme do ano enrolado dentro duma caixa de metal resistente, sob um autocolante que dizia "Frágil", mas em bom alemão.
Escondeu uma bobine por baixo da roda suplente, e a outra por baixo do banco dos passageiros, mas a aquela hora o guarda fronteiriço apenas espreitou para dentro e lhe pediu um cigarro para a viagem. Ufa! Desta já se tinha livrado!

Chegado triunfante a Lisboa com o seu pequeno tesouro do momento, tratou de telefonar ao grande amigo Zeca Palito, para que este o ajudasse na preparação da montagem. Assim o chamavam porque em todos os cocktails e recepções em que se infiltrava, apenas comia o pastel de bacalhau e os croquetes com um palito. Nunca mais se livrou da fama, e ainda hoje traz no seu fato engomadinho um cartucho de palitos das melhores fábricas do norte. Conhecia as peripécias de Cicciolina e até tinha em tempos assistido a uma performance em directo da artista, quando passou pela cidadezinha austríaca de Lipzhagen, pelo que seria talvez o português com mais intimidade e à vontade com a actriz italiana. À vontade e à vontadinha...

Quando chegou à rua dos Fanqueiros, Manuel abriu-lhe a porta, sem sequer o cumprimentar e rosnou-lhe que viesse ajudar porque era verão e ele já suava de montar o projector..
Tirou o boné de imediato e ficou fascinado com as etiquetas que o material detinha. Um grande escrito à mão com o título do filme para que não restassem dúvidas: La conchiglia dei desideri, dirigido por Riccardo Schicchi (1983), era o primeiro filme a estrear em todo o Portugal, daquela  porno star Europeia...

Sentaram-se os dois em frente à imagem projectada na parede branca, apagaram as luzes e apenas ouviam a fita a deslizar com uma luz lateral intermitente sob as suas caras, enquanto apareciam os primeiros fotogramas. Uma música ambiente de orquestração barata dava o mote para as primeiras imagens duma pradaria onde se via uma rústica casa de montanha. A porta abre-se, e um grande plano da loura branquinha e lábios marcadamente vermelhos, mostra o olhar lascivo e ao mesmo tempo pueril, que denunciava tudo o que viria a se desenrolar naquele ambiente de exploração carnal. O decote pronunciado que caiu de repente ao fim de sete minutos de projecção, seria o fósforo que nunca mais apagaria a essência da história. O filme estava muitíssimo bem conseguido, quer do ponto de vista dos arrojados planos cinematográficos obtidos, mas quer também do enredo e dos personagens criados.

Visualizaram o filme até ao fim, não sem que lhes entumecessem os opíparos instrumentos em bastas ocasiões, mas quando surgiu o momento do genérico final, Manuel fixou o chão e anunciou derrotado:
- Temos um problema! A porra do filme está todo dobrado em alemão!

Este género cinematográfico não é dado a muitas falas e os gemidos não necessitam legendas, mas a verdade é que Palitos costumava traduzir as películas americanas, e o alemão era uma língua em desuso que ele não dominava. De imediato não se atrapalhou, e num sorriso triunfante exclamou de forma natural:
- Já sei! Inventamos os diálogos!
Reviram o filme segunda vez, mas desta feita com sonoras gargalhadas ao colocarem as legendas inventadas por eles, para as falas dobradas da estrela italiana que vociferava um alemão respirado e sensual.

Nunca se tinham divertido tanto na vida, nem nunca podiam ter imaginado construir uma história do princípio ao fim, sem perceberem uma palavra daquilo que estavam a ouvir. Faria roer de inveja a qualquer bom argumentista que se preze!

Não sendo um filme erudito, e não ficando bem a um distribuidor decente passar este género particular de cinema na sua zona de conforto, Manuel fez a estreia no Teatro Sá da Bandeira num tórrido domingo de verão, enquanto cedia os direitos de emissão ao seu homónimo nortenho para que estreasse no mítico Cinebolso em Lisboa…

Assim se fez uma parte da história cinéfila num pequeno escritório de Lisboa, onde nunca ninguém chegou a questionar a veracidade dos diálogos de um filme em que os diálogos são de facto um acessório.

Ainda hoje não sabemos o que a actriz precisava quando uma das falas se traduziu num "Dá-me forte com essa nabiça em forma de baguete rústica!" ou numa cena de apresentação alguém exclama sedutoramente "Ah, hoje temos churrasco da catagoria..".

Um deleite total...

Um grande abraço ao Sr.Manuel!


PS: história real, ficcionada pela teoria do fole

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

20 Euro 16


Prometi que chegaríamos de manhã, mas a noite anterior foi dura e só nos permitiu chegar depois de preparar os miúdos e retemperar forças com um almoço ligeiro. O dia estava fenomenal, o verão exibia-se no seu melhor, e corria electricidade no ar, numa comunhão que a pouco e pouco crescia em onda positiva. Bandeiras, cachecóis, cânticos e camisas da selecção, davam power a uma festa que antevíamos renhida.

Estávamos no aniversário da Sofia, que celebrámos na costa junto dos amigos, e assistimos ao jogo no bar de praia, já em paródia. Lembro-me que tínhamos uma mesa de dúzia e meia de franceses mesmo ao lado, pelo que se manteve uma picardia saudável durante todo o jogo.

Para começar, o nosso hino cantado de pé e com alma, logo desafiado pela marselhesa em tons mais suaves e menos testosterónico. Começamos bem, entrosamos, e estávamos a dar réplica a uma equipa que jogava com todos os trunfos em casa! O balde de água fria aconteceu quando o grande Cristiano Ronaldo sofreu uma entrada duríssima e teve de ser substituído! Que frustração para o nosso melhor jogador de todos os tempos em sair lesionado! Em não poder ajudar a equipa a vencer!! Ali, pensei que estava tudo comprometido. Os gauleses ganharam fôlego e começaram a dominar, quer em campo quer na cerveja bebida. Mas a malta não desiste e entoa cantares bélicos e clubísticos, bem como músicas do Clemente, Àgata e Trio Odemira, enquanto se roem as unhas de nervoso.
Perdemos a nossa estrela, mas o resto da equipa joga em clubes mundiais, caramba!!

Chegado o intervalo, metade da mesa de crianças e mulheres já não sentia a vibração da vitória e entretinha-se com banalidades desinteressadas do jogo. Foram quinze minutos a tentar superar aquele folhetim de tensão, convictos que a França também não tinha feito ainda nada para merecer ter golos. Levantar, espreguiçar as pernas e acelerar a imperial pedida ao balcão, antes que as equipas voltem ao relvado.

Curiosamente foi na entrada da segunda parte que tive a certeza que íamos ganhar! Ver o nosso capitão com a energia redobrada e a incentivar os seus colegas para dentro de campo era algo que mostrava a raça lusitana! Os nossos heróis davam luta e de certeza que tinham lido a teoria do fole no intervalo!

Aguenta, aguenta........Prolongamento!!! Até já nos via a ganhar os penaltis!

Que nervos, que emoção, bola à barra!! O semblante francês já não tem a confiança do início!
Vamos embora!!!

O nosso treinador da altura, Fernando Santos, tinha feito algumas substituições e a última tinha sido a entrada do sempre azarado e coxo do Éder! Mas ao contrário das outras vezes, senti que vinha com ganas e um querer fora do vulgar. Primeiro uma cabeçada em cheio que levava selo de baliza, mas quando já todos estávamos em silêncio a sofrer, como quem mantém níveis de ansiedade contida, Éder de fora de área saca de um tiro à Eusébio, metendo a bola no cantinho da baliza francesa!!!!!

Gooooooooooolllo!!!

Todo um país saltou!

Ainda hoje me lembro da sensação de alegria  que senti. Parecia que algo explodia do meu peito e umas molas nas pernas impulsionaram-me num salto quase tão atlético como o do Ronaldo! Que bomba!! Campeões da Europa!!!!! F#3”*%$!!!
Vou dizer outra vez: Campeões da Europa!!!

Depois disso já fomos outra vez Campeões várias vezes, mas nunca como esta em que todo um povo sofreu, em que todos os emigrantes sofreram, em que todas as nossas ex-colónias sofreram e rejubilaram de alegria por essa vitória. Sabe tão bem ganhar e levanta a moral de uma maneira tão positiva, que Portugal mereceu.

Passamos a fase de grupos com três empates e foi a partir daí que me convenci da vitória. Diziam que jogávamos mal, sem garra, sem futebol bonito, mas era tudo inveja de não apreciar a organização, o rigor, o espírito de equipa, a vontade de ganhar com inteligência. Para mim o exemplo mais marcante e determinante nesse caminho foi a vitória sobre a Hungria. A força que tivemos para empatar três vezes, quando estivemos a perder por três vezes no mesmo jogo, é de valor!! A rotação dos jogadores, a confiança do treinador, a serenidade de toda a equipa. Que fenómeno!

Foi aqui que o país deu a reviravolta mental e começou a acreditar em si, no seu povo, nas suas gentes e nas suas potencialidades.
Já éramos os maiores na simpatia, no trabalho, nos afectos, nos relacionamentos, nas vitórias aqui e ali, mas agora passados trinta anos, somos isso e muito mais.

Sentimos que afinal uma nação é isto. Um conjunto de pessoas que se reúnem em torno de um objectivo, com trabalho, com perseverança, com garra, com resiliência, com patriotismo!

Aquela vitória foi tão empolgante e sofrida, que arrisco dizer ter sido das emoções mais fortes que já tive. Bem sei que de lá pra cá já ganhamos três vezes o campeonato da Europa e duas o campeonato do mundo, mas aquela primeira vez foi mesmo emocionante. Dizem que a primeira vez é sempre especial e aquela foi! Trinta anos depois e mesmo assim aquela foi a vitória mais marcante.

Mas a final daquele longínquo Euro 2016 foi mesmo memorável! Assim muito à distância, ainda consigo sentir a alegria enorme do momento.

De um momento que se tornou eterno e histórico!

Viva Portugal!!

Viva!

 

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

A inspiração

Pode-se estar umas horas, uns dias, uns meses, até anos sem ela, mas quando aparece funciona como uma mola que desengatilha o fluxo de criatividade do pintor, do compositor, do coreógrafo, do escritor, ou de todos aqueles que a necessitam.

Uma das características que muito determina um artista é a inspiração. Sem ela nada funciona e corre-se o risco de repetir ou inventar algo já experienciado ou vivido.

Afastar as nuvens que encobrem os momentos de monotonia, é muitas vezes tarefa simples que fazemos reforçando o vento, e noutras aparece de forma tão simplória como se tivesse acabado de dobrar a esquina de mãos nos bolsos.
É curioso que a inspiração fisiológica seja o movimento de entrada de ar dentro da via aérea, enquanto a inspiração filosófica se transmita exatamente pela via contrária, acontecendo de dentro para fora. Deveríamos considerá-la uma expiração e não uma inspiração!
Mas neste jogo de palavras, a acções inspiradoras vêem-se reflectidas de várias componentes que encerram muita da nossa alma. A sabedoria, a sensibilidade, a(s) experiência(s), a influência, a necessidade, o engenho, os sentidos, os sentimentos, e até os empurrões aditivos catapultam os pensamentos criativos.
Tenho por certo que nasce muito do trabalho, mas também da capacidade do eu em criar e reinventar algo de novo. As ideias não brotam porque sim, mas progridem porque alguém pensou nelas, alguém se dedicou a elas. Outras vezes acontecem ocasionalmente como se do nada viessem, e algumas até nada merecem de tão pouco inspirado que foi o desenrolar da germinação.
Pode ser um processo tão rápido como a inspiração de uma jogada fabulosa do Ronaldo, ou uma inspiração frutada que permite a descoberta da lei da gravidade, ou um discurso flamejante e emocionado de um orador, ou uma prosa versada na beleza das palavras, ou uma coreografia que rompe com a estática e estética do movimento saturado por outros. Toda a criação precisa de inspiração!
Os génios precisam de inspiração e ninguém sabe qual é a fonte certa. Os pais podem ser uma inspiração, a arte pode ela mesma servir de inspiração, o outro pode servir de inspiração, o ambiente pode propiciar a inspiração, e há até quem recorra a drogas para que lhe desça a inspiração que muitas vezes tarda em aparecer. Não se bebe, não se fuma, não se injeta, simplesmente aparece, como as teorias do fole que brotam espaçadamente conforme a ventania do autor.
Por outro lado, quanto mais nos aplicarmos num tema, mais binómios tentativa-erro vão aparecer, aprimorando a obra ao ponto de podermos desencadear um acto de inspiração memorável, mudando o rumo e criando muitas vezes uma obra-prima.
Também é certo que quanto mais lermos, quanto mais estudarmos, quanto mais praticarmos, quando no fundo mais nos munirmos de informação e de variabilidade de informação, mais as nossas circunvalações terão capacidade para misturar o conhecimento e daí partir para plataformas de genialidade que podem culminar numa obra perfeita.
Esta base de sustentação que nos serve de suporte ao essencial daquilo que vamos alimentar, será mais forte quanto mais conteúdos tiver. E sem ela é impossível concretizar acções. Sem saber ler e escrever é impossível conceber uma narrativa, sem conhecer a bioquímica é impossível inventar novas moléculas, só com saber trautear não se erguem sinfonias, sem sementes de conhecimento não se cultivam campos de saber.
Depois virá a diversificação e amplificação daquilo que já dominámos, permitindo-nos alargar horizontes, cruzar várias genéticas ou aprimorar canais com inspirações que lhe dão uma dimensão inexistente até ali. Quanto mais mundo virmos, ouvirmos e vivenciarmos, maior e melhor será tudo aquilo que criamos. Quanto mais knowledge, mais fácil e rica será a nossa inspiração.
Não sei se vem da razão ou do coração. Sabemos que os neurónios desempenham um papel importantíssimo na interligação e amplificação da rede, e no simplismo desta razão tão científica podemos desaguar no facilitismo de que tudo é razão e nada é coração. Mas certo é, que ainda ninguém conseguiu explicar onde fica a alma, onde fica o belo, onde fica o arrebato de inspiração. Os extremos de depressão ou de mania encaixados no rótulo de coração, será que saem em actos de genialidade explodindo em forma de escrita, música ou dança, ou será que têm um racional conciso e molecular?
Não sabemos..
Ainda...
Nestes mundos, o conhecimento do desconhecido é enorme, pelo que desejo que a inspiração nunca nos abandone!
Um abraço



sexta-feira, 16 de setembro de 2016

O Campeão!

Os idos anos oitenta lembram-me tempos de felicidade e despreocupações. Uma infância feliz vivida numa ilha perfeita, com uma família perfeita e com amigos perfeitos.

Na altura em que andava na minha saudosa Escola Primária da Carreira e sob a batuta do enorme (em tamanho e coração) Professor Bráz, tenho na minha memória um amigo de infância.

Pertencia àquele grupo de amigos mais próximo de um núcleo de afinidades infantis instintivas, que vinha aos arraiais lá em casa, que cruzava a mesma postura de vida, que jogava à bola e corria como uma flecha para todo o lado.

Lembro-me dos aniversários na Quinta Deão onde morava, dos pais que não tinham sotaque madeirense, dos dois irmãos mais buzicas que ainda não eram gente, e de um outro mais velho que impunha respeito porque se calhar já era quase adulto.

O João era um miúdo sempre alegre, bem-disposto e com um sorriso que denunciava a sua pureza e transparência de espírito. Em permanente actividade, dava a ideia que estava efectivamente a correr para todo o lado. Eu que corria bastante rápido e veloz na altura, via-me muitas vezes aflito para lhe ganhar uma disputa para a qual estava sempre pronto a arrancar!
Ainda continuamos colegas na Escola do Batalhão, antigo quartel no Funchal, onde me recordo dos circuitos de corrida na "apanhada". Aquele salto lá ao fundo, antes do túnel por baixo das escadas em que deslizávamos por debaixo do varão do muro, era sempre onde ganhava avanço! Fisicamente era muito ágil e de uma destreza fora do comum.

Já na altura o João tinha a "pancada" do windsurf! Um desporto desconhecido que juntava uma prancha com uma vela. Sei que tinha também um irmão mais velho que praticava a modalidade, mas o João ganhava no empenho e dedicação. O seu rosto iluminava-se quando falava do oceano, do vento, das ondas, do tempo, da prancha, da retranca, do mastro e de tudo aquilo que tivesse a ver com o velejar.

Em todos os momentos tentava arranjar uma janela de tempo e escapulir-se para o seu refúgio de imensidão que era o mar, mas as regras escolares determinavam que o período estabelecido para as aulas fosse de 50 minutos. Se o professor daquela disciplina não aparecesse nos primeiros 10 minutos, soava na escola a sineta de "toque de feriado", o que queria dizer que não teríamos aula. Enquanto íamos todos contentes jogar à bola ou às corridas, o João ia para o porto do Funchal, sacava a prancha, surfava meia hora no mar e voltava a tempo da aula seguinte!

Só assim se fazem campeões!

Desde então acompanho a sua carreira pelas notícias e fico contente em pensar que aquela dedicação e gosto tiveram as suas medalhas. Fico contente porque olhando para aquelas crianças de então, o João teve a capacidade e o discernimento de nunca se desviar daquilo que lhe dava mais gozo fazer. Não se limitou a isso, mas mostrou que é da força de vontade e da perseverança que alcançamos metas sobre metas, e que devemos ter essa atitude em tudo aquilo que nos propomos fazer.

Obviamente que não terá sido um mar de rosas, que com certeza abdicou de muitas coisas, de muita gente, de muitas vidas, mas os prémios foram uma justa e merecida recompensa. Estou certo até, que a verdadeira recompensa não são as taças ou as medalhas arrecadadas, mas sim todos os desafios em que se superou verdadeiramente. E a meu ver, a derradeira vitória será mesmo olhar para trás e sentir que fez sempre aquilo que com gosto lhe deu mais prazer.

Mesmo antes de o saber, afirmava que seria uma injustiça se o João não fosse o porta-estandarte da comitiva aos jogos olímpicos do Rio de Janeiro. É um feito a nível mundial o facto de um atleta qualificar-se sete vezes consecutivas para a prova rainha de todos os desportos, e esta escolha foi um acto de justiça para alguém que viveu e vive a sua vida em prol de um caminho.

Não sei se o destino já o traçou para os próximos anos, mas acredito que o arrecadar de um experiência como esta, plena de sucessos e vivências desportivas ímpares, só o poderá guiar na senda de um percurso sempre ligado ao desporto, à competição e a algo que percebi ser já indissociável: ao Mar!

Fica aqui a humilde vénia desta Teoria do fole…

Um abraço, parabéns, boa sorte e até breve João!

João Rodrigues: velejador com sete presenças consecutivas em Jogos Olímpicos (Barcelona 1992; Atlanta 1996; Sydney 2000; Atenas 2004; Pequim 2008; Londres 2012; Rio 2016), várias medalhas e taças no palmarés, inclusivé Campeão Mundial de Windsurf.



terça-feira, 26 de abril de 2016

Reality-Show

O programa abriu com as imagens da agressão do musculado Rúben ao fininho Gualter, depois de este ter descoberto que Andreia tinha comentado a investida de Jéssica ao namorado ocasional de Rubina. Estas imagens foram repetidas em vários dos noticiários televisivos da cadeia em questão, fazendo-se directos com os familiares dos envolvidos e organizando-se painéis de comentadores de tal escândalo.
Assim vai o nosso país….
Nesta mancha de informação diária que nos bombardeia com o mau, o sofrível, e por vezes o bom, revela-se constrangedor assistir a estes chamados “Reality Shows”. Não consigo perceber como é possível tamanha aberração, e penso que deveria ser objecto de sério estudo sócio-psico-antropológico!
Aqui há uns anos, eu próprio me detinha a apreciar aquele laboratório humano do "Big Brother". Aquela atracção de poder espiar e analisar as reacções de pessoas que aprendemos a conhecer através da televisão.
Sem nunca ter tido contacto com elas, todos podíamos tecer juízos de valor ou emitir comentários fundamentados acerca de uma ou outra situação, como se fôssemos amigos de longa data.
Mas analisando retrospectivamente este comportamento, realizo que me conforto na justificação da análise psicológica como uma das razões para visualizar horas de directos e de pequenos escândalos quotidianos, que fariam corar de vergonha qualquer poluto cidadão deste mundo dito normal.
Mas até aqui tudo bem. A Malta divertia-se a comentar as actividades mundanas como se de um zoológico se tratasse, ou fazia de conta que estava a ver as cenas da vida selvagem…mas em humanos! A novidade acabaria e tudo não passaria de uma experiência televisiva de puro entretenimento. Enganámo-nos! Para além daquele, houve ainda um II, um III, um IV, e ainda um de celebridades!! Só que no apuramento da espécie existe sempre um refinamento e uma evolução, que neste caso se traduziu em séries cada vez mais elaboradas e com mais regras, juntamente com concorrentes cada vez mais rascas.
O modelo de sucesso foi sucessivamente replicado, e os seus shares assentaram numa lógica de paternalismo português (vou ver, para perceber como posso ajudar o próximo) misturado com gosto mórbido de intrometimento (tudo a opinar sobre o que quer que seja) e voyeurismo social (tentar perceber se a Cynthia abocanhou o Celso e em que parte - do programa, claro...)
Estes são os verdadeiros motores das audiências!
Personalidades narcísicas e egocêntricas centradas no culto da admiração e da imagem, QIs limitados e falhas no seu desenvolvimento base, pontapés livres na gramática e na sintaxe, culminando com delírios de grandeza por aparecer em televisão: "Os portugueses sabem oquiéqueeupenso!". Como se os reais portugueses se importassem com o que a ralé portuguesa com tempo de antena pensa…
São horas e horas de entulho vazio de conteúdo, empacotado em directos e em galas de horário nobre, com quilos de silicone cobertos de lantejoulas, vestidos descapotáveis e dentes alinhados em sorrisos perfeitos. Cada vez que sai um concorrente da gaiola dourada, é aplaudido em pé com uma deferência e homenagem, que faria no mínimo corar de vergonha qualquer Nobel deste mundo.
Louras turbinadas, machos insuflados, tias queques, artistas em decadência, pessoas indeterminadas, bipolares que ainda não o sabem, preenchem um espaço televisivo que até chega a abrir noticiários. Se dizemos que isto é bom hoje, qual será o nosso referencial amanhã...?
E é aqui que surge um outro ingrediente na fórmula da questão: se estes contextos são projectados pela televisão, ampliados pela imprensa escrita e pelo jornalismo de pacotilha, desde logo são assumidos como relevantes e validados de "relevantes". Será que uma imprensa credível, responsável e formativa se torna fidedigna de tudo o resto que emana? Duvido, mas esta será segura matéria de análise numa outra sessão da teoria do fole…
Não vou bater mais no ceguinho, ou neste caso na cegueira das celebridades e da comunicação social. Por uma questão muito simples: aqui falta o terceiro e mais importante elemento desta tríade maquiavelicamente perturbada: o telespectador!
Atribuindo um desconto mediático aos intervenientes mais directos desta equação, é enigmático pensar nas pessoas que acompanham este tipo de programas televisivos. Assusta pensar quem são as cabeças que assistem, compram revistas e pesquisam na net factos relacionados com tudo o que gravita à volta disto. É perigoso para um país com este género de programas que a sua população se entusiasme com tão pouco neurónio junto. Devia haver um serviço público de cada uma das emissoras, que permitisse sancionar qualquer tentativa de emergência de um reality-show. Até porque "reality" nem sempre se coaduna com a palavra "show"...
Devíamos dar mais importância à saúde mental em termos populacionais! Sabendo de antemão impossível que cada um de nós tenha um psicólogo à cabeceira para nos demover da tentação degradante de acompanhar estes bocados televisivos, seria essencial canalizar uma política de controlo e validação desta grelha de programas. Este é um dos caminhos que devemos seguir, e é este o tipo de orientação que queremos ensinar aos nossos filhos para que lhes sirva de guia. Para que eles possam ser influenciados pelo lado positivo das teorias do fole, não resvalando para a mediania e crescendo de forma salutar.
Cabe-nos por isso colocar um travão à disseminação em bola de neve de fenómenos como este, não só para protecção dos intervenientes, mas também para resguardo das mentes que estão em desenvolvimento. Sou a favor dos exemplos positivos de forma proactiva, porque já bastam muitas vezes os desígnios infelizes que nos fazem experienciar o menos bom de forma imprevista e não invocada.
Por isso, de cada vez que alguém rondar a tentação de um reality-show, podem fazer como eu faço com o meu filho: Sempre que vamos a algum lado, ele pergunta-me se há lá alguém do seu tamanho para poder brincar. Se eventualmente alguém quiser entrar num programa desses respondam-lhes como eu num tom irónico:
- Não filho. Ali não há ninguém do nosso tamanho...
Dêmos meia-volta e volvamos!
Um abc

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

A Coronária Voadora


É certo que o casamento formal obriga a uma clássica despedida de solteiro que cursa, na maioria dos casos, em plena desgraça física e atentado à resistência humana. Mas a despedida de solteiro mais exótica terá sido efectivamente a que passei num fim-de-semana em Estocolmo.
O noivo aí reside, e na altura decidimos se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé. Isto é, agarramos em nós e aterramos de surpresa em terras suecas.
Descansem os intervenientes que não irei fazer um relato nem detalhado, nem sequer genérico das peripécias (inocentes, diga-se de passagem...), que até caberiam num volume inteiro desta teoria do fole.
 
Como tudo o que é bom acaba, o fim-de-semana fez-nos regressar num voo da Ibéria, com escala em Madrid. No aeroporto de Arlanda embarcavam cerca de 20 farrapos humanos, agastados com a jornada, mas felizes com o coração cheio de convívio e boas lembranças.
 
A classe económica ia cheia que nem um ovo, sem nunca ninguém se ter questionado o porquê da plenitude plena do ovo. Aquele ritual de fazer o check-in, tirar os líquidos, passar o controlo, revistar a bagagem, aguardar na sala de embarque, entrar um-a-um no avião, passinhos curtos no corredor, fez-me pensar o quão chipados já estamos para alguns procedimentos.
 
Dos meus compinchas, poucos foram os que não tiveram uma qualquer graça ou galanteio cavalheiresco para com as hospedeiras. Digamos que estavam numa alegre competição a ver quem sacava o sorriso mais espontâneo!
 
Malas de mão em cima, garrafas de água em baixo e capas atiradas para cima dos bancos, ajudavam na algazarra formada mas enlouqueciam o pessoal de bordo.
Tomamos de assalto os últimos lugares do avião na expectativa de cada um se encostar e tirar um sono reparador de tão noctívago fim-de-semana.
 
Cintos apertados, telemóveis em modo off, e alguns ainda a pedir rodadas de cerveja para aliviar o stress da claustrofobia, fizemo-nos à pista do aeroporto de Estocolmo seguindo em fila indiana um comboio de aviões sem carris.
Levantamos voo cerca de 30 minutos depois, comprovando que os vagões que nos antecediam erguiam-se nos céus, rumo sabe Deus com que destino.
 
Mal o sinal de apertar cintos se apagou, o cansaço deu lugar a um ímpeto de convívio e reunião, em que uns jogavam às cartas, outros pediam comida e bebida, outros metiam conversa com o par de suecas louras que abandonava o país, enquanto dois ou três dormitavam na medida do possível, e do permitido pelos restantes.
 
Levávamos cerca de uma hora de viagem e pelas apostas feitas sobrevoaríamos talvez a Alemanha da temível Merkel. Por instantes encostei a cabeça e reclinei o banco, fechando os olhos num preparativo soporífero.
De súbito uma chamada da chefe de cabina pelo intercomunicador.
-"Atención, atención por favor, se ruega la presencia de algun médico a bordo, de forma urgente en la classe ejecutiva". A voz denotava muita ansiedade e era ofegante como se algo grave se passasse na elitista "ejecutiva"... Demorei uns segundos a abrir os olhos, mas quando os abri já vários dedos apontavam para mim num coro de incentivos vociferais do resto do grupo. Mesmo que quisesse passar despercebido, seria impossível....
 
Levantei-me com calma e dirigi-me ao nariz do avião para cheirar o que lá passava. Afastei a cortina da classe executiva e dou com as hospedeiras num nível de stress e ansiedade enorme, correndo de um lado para o outro com caras de pânico estampadas no rosto.
 
Olho para o lado e vejo um homem enorme, presumivelmente nórdico, pálido, suado, ofegante, meio desfalecido, com a mão em garra sobre os botões da camisa, e num esgar de sofrimento muito grande.
Felizmente ainda falava e pude perceber que lhe doía o peito, como se os sinais clínicos não fossem evidentes o suficiente.
Pedi ao único hospedeiro que vinha a bordo, que me ajudasse a colocar o doente deitado no chão prevendo eu a possibilidade de uma massagem cardíaca iminente.
-"Mira, lo ponemos aqui en la frente".
 
Entre os dois pegamos naquele corpo pesado e meio morto, praguejando eu em português e ele em castelhano pelas hérnias lombares que nos estavam a entortar. Nunca eu me apercebera até então, da similar harmonia do vernáculo dos dois idiomas e o quão parecido éramos como povo. Se lhe tivéssemos acrescentado uns gestos figurativos, seria a comunhão perfeita entre nações. Irra, que o homem pesava mais que uma morsa..
 
De imediato e com autoridade coordenadora pedi aos meus assistentes do momento:
-"Ponle el oxígeno y passarme la maleta de emergência! Rápido!"
A chefe de cabine prontamente me trouxe uma malinha com uma cruz branca estampada e ar de kit de pensos do Toyota do meu pai. Como as aparências por vezes não iludem, assim a sacolinha desiludiu: pensos rápidos (muitos), ligaduras (poucas), álcool (não na quantidade que era ingerida lá trás), aspirina, paracetamol,  hidroxizina, nitroglicerina, e mái nada!
Bom, se o doente tivesse uma paragem era sempre bom saber que podíamos fazer compressões a 8000 m de altitude e pouco mais. Mas que raio de kit era aquele?!
 
No pressuposto óbvio de um claríssimo síndrome coronário agudo, meto-lhe uma nitroglicerina debaixo da língua e desfaço a aspirina de 1000mg, escolhendo dos trinta fragmentos obtidos o bocadinho que mais se assemelhava a um quarto do original, enquanto o doente arfava com dor.
 
O Comandante apareceu e apercebeu-se da situação, abordando-me muito calmamente e de forma muito profissional:
-"Doctor, estamos sobrevolando Zurique. Cree usted mejor desviar el avión?"
Não tive dúvidas e ripostei:
-"Si Comandante!" (Se bem que me apetecia mesmo era levantar, fazer a continência e dizer: "Si mi Capitán!", mas mantive-me ajoelhado...)
Perante a gravidade do caso e a histeria das hospedeiras que continuavam a correr de um lado para o outro sem eu perceber com que objectivo concreto, a decisão do piloto foi a de iniciar a descida.
 
Entretanto a cara do doente demonstrava um claro alívio da dor, a respiração estava mais calma e ele próprio já falava em guturejos eslavos. A coronária parecia estar a dar tréguas ao homem!
Que diferença fazem três coisas aparentemente simples...o oxigénio, a nitroglicerina e o ácido acetilsalicílico! Bom, acrescento a quarta: o médico..
 
Demoramos apenas 20 minutos na descida, e uma ambulância estava na placa esperando o transformado avião. Quando aterramos, já o doente falava, já me contava que tinha tido um enfarto do miocárdio e que uma artéria estava entupida pela cerveja, pelo tabaco e pelas comezainas. Mas sem dor, sem dificuldade respiratória e com um fácies de alívio que me confortava a mim e a todos os restantes.
 
Com a chegada dos paramédicos pude confirmar o diagnóstico electrocardiograficamente, ajudando a colocar o doente na ambulância.
O homem agarrou-me com força na mão, e olhou-me nos olhos como se estes falassem de gratidão: -"Thank you doctor! You saved my life!"
Só lhe consegui apertar a enorme mão com as minhas, e respondi - "Cuide-se.."- saindo da ambulância sem olhar para trás.
Estas são as recompensas que garantem que escolhi a profissão certa!
 
Voltei a entrar no avião e tive outra recompensa das hospedeiras, que claramente aliviadas, me presentearam com dois beijos de agradecimento cada uma. Tiraram uma cópia do meu cartão da ordem dos médicos e tive pena que uma ou outra não me tivesse pedido o número de telefone, que teria dado de bom grado…
Era o momento de descompressão e um ambiente de alegria reinava na cabine! Só faltava abrir o champanhe!
 
O pessoal da primeira classe também estava reconhecido e agradecido, alguns ainda a digerir todo o impacto da situação num silêncio reflexivo e introspectivo.
Convidaram-me a passar o resto da viagem em primeira, mas claro que optei por me reunir ao grupo agradecendo a gentileza.
 
Cruzo a cortina para a classe económica um pouco agastado, e sou prontamente brindado com uma chuva de aplausos tal e qual como um herói que liberta a aldeia do fogo inimigo. Épico!
Ainda assim, pelo canto do olho consegui vislumbrar um ou outro passageiro enfurecido porque tinha perdido uma reunião agendada, e uma ou outra família que tinha perdido o voo de ligação não sei para onde. Enfim, nunca se pode agradar a todos..
 
Assim acabou uma jornada estafante mas bem sucedida!
Desde então, sempre que viajo de avião levo umas aspirinas e uns nitromints…
Pelo sim, pelo não…
Um abraço!

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Eutanásia



Tudo tem um princípio, um meio e um fim. Sabemos como começa, e até podemos prever quando começa, mas nunca como, e quando acaba. É assim a vida...


E a quem podemos atribuir a gestão dessa vida? Ao próprio, aos outros? Será que o próprio tem e deve ter o controlo total da sua vida? Será que não cabe à sociedade, regular algumas componentes determinantes dessa mesma vida? De facto já o faz no seu dia-a-dia, mas não estamos a falar de questões mundanas ou de quotidiano que balizam o nosso traçado.


Enquanto estamos activos e independentes nas actividades, no escrever do próprio destino, temos legitimidade e liberdade para estabelecer as nossas fronteiras, os nossos abusos e excessos. Podemos até ter atitudes que no extremo destroem a vida, mas conscientes e livres dessa mesma acção.


A questão pertinente coloca-se nos momentos em que já não conseguimos controlar a navegação do nosso rumo. Nos momentos em que a doença nos tolhe os movimentos, em que o nosso cérebro se apagou irreversivelmente deixando apenas o piloto automático de alguns órgãos vitais, em que as máquinas nos sustentam esses mesmos órgãos que cessaram função.


Nesta sociedade de hoje, em que somos todos jovens, bonitos e eternos para todo o sempre, é difícil aceitar qualquer rasgo de fim de linha. Como se os comboios fossem alimentados por carvão de queima infinita, e se o tempo parasse um dia numa qualquer estação sem apeadeiro, como no faroeste.


Não há lugar ao términos, ao fim, ao simples acabou-se a que os velhos já se vão habituando. Tudo tem de ser salvo, todos os animais aliviados da forca, e até o sofrimento das couves evitado. Esta é a mensagem subliminar que nos vendem a toda a hora e em todos os canais!


Daí a discussão cíclica de um tema forte e controverso como a eutanásia. Será que é um direito? Será que é uma opção? Será que contrapõe assim tanto os valores humanos? Não vou discorrer sobre a terminologia associada à palavra, mas apenas delapidar à visão da teoria do fole, um diamante que está em bruto em muitas fortalezas mentais.


Assumo-me liberal, e como tal, creio que as liberdades individuais podem e devem ser respeitadas ao máximo. Fazer o que se quer, como se quer e quando se quer, desde que isso não implique lesão de terceiros, pode ser legítimo. Mas assumir um ato disruptor para com o próprio em plena posse das suas faculdades mentais, é algo que não encaixa completamente na minha visão. Por duas razões simples: pela valorização fortíssima que tenho da vida humana, e pela minha condição de médico.


Talvez não conceba de forma clara, como é que existem países em que os médicos fazem eutanásia assistida, programada e voluntária, a doentes elegíveis por critérios definidos. Este papel dúbio de médico-salvador que recupera vidas (literalmente do além) num determinado momento, e que no minuto seguinte assiste um fim de vida programado, é algo no mínimo bipolar. É certo que perante um doente terminal e grave, muitas vezes assumimos interpares o não escalonamento terapêutico, a não realização de manobras invasivas, o desinvestimento pleno, que sabemos terá as consequências de um desfecho fatal. Mas felizmente são casos pontuais em que a partilha de informação e capacidade de decisão com a família é determinante na decisão final. Segundo as recomendações do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, estas atitudes são correctas e devem ser tomadas num consenso o mais amplo possível.


O sofrimento de alguém que tem uma doença incurável e terminal é tremendo, e acredito que o próprio tenha pensamentos de autodestruição, mas isso não legitima a vontade de que lho façam. Mesmo que chegado a um ponto de não retorno, mesmo que saibamos quando a vela se apagará, não me sinto confortável em accionar activamente algo que vai influenciar o tempo do desfecho.


Para mitigar o sofrimento do próprio e dos familiares, dirão alguns? Minorá-lo com certeza, e de todas as formas possíveis, especialmente com a valiosa e fundamental intervenção dos Cuidados Paliativos, mas não ceder à tentação de o desligar só porque nos incomoda e impressiona. Se este é o factor primordial, então devemos criar condições e o terreno estrutural para que haja acesso universal a esses mesmos Cuidados Paliativos.


Estou também em perfeito desacordo quando se diz que perdemos a dignidade com o fim de linha de uma qualquer doença. A dignidade cria-se através de um historial de vida e de conceitos criados, que não podem ser distorcionados por uma incapacidade terminal de se relacionar ou interagir. Talvez concorde que a dignidade mude de forma nestes casos, mas aquela pessoa mantém a sua dignidade intocável.


Nos doentes terminais há quem veja um fardo e um ónus de trabalho, mas sabemos de antemão que é destas lutas que nascem as resistências e as resiliências das nossas vidas. Quer para o doente, quer para os que o rodeiam, servindo muitas vezes como exemplo de luta e perseverança. Estupidamente, a perda terá de se transformar em algo superado e combatido. Assim aprenderemos que na vida não carregamos no interruptor e as coisas não desaparecem no escuro dum qualquer quarto.


Num país como o nosso, onde se morre muitas vezes sem familiares, anonimamente num hospital, em sofrimento, sem dignidade, percebo a advocacia da eutanásia, mas o crivo destas acções tem de ser ponderado.


Neste caso, defendo empírica, emocional e profissionalmente que a eutanásia deve estar balizada por uma série de itens fortes, e decidida em última instância caso-a-caso, por um conselho de pensadores (profissionais de saúde, juristas, filósofos, religiosos, políticos, outros), que analisariam e decidiriam da sensatez de um arremesso como este por parte de um doente.


Recebi há tempos de um amigo, o convite para escrever sobre este assunto para um jornal. Confesso que não sei se me incluiria na barricada do sim ou do não, simplesmente porque a complexidade é tão grande que estaremos sempre em omissão ou em excesso para muitos.


É um tema que precisa e merece um debate alargado, independente de lobbys políticos, religiosos ou sectários, para que as pessoas se esclareçam, se informem e opinem.
Mas sobretudo para que pensem, e pensem pelas suas próprias cabeças. Não apenas com o coração..


Não será fácil, e é culturalmente desafiante numa sociedade que cada vez mais, tem dificuldade em reunir consensos.

Um abraço e vivam a vida!