sexta-feira, 8 de junho de 2012
Destino
Já passava da meia-noite, e naquela estrada ampla só se viam as luzes que pontilhavam a negra paisagem, entrecortada pelos faróis de outros viajantes que vinham do meu próprio destino. O caminho já era longo, e a previsão de chegada também estava longe.
Nestas alturas aproveito para pôr os telefonemas em dia fazendo a viagem em companhia, ou então opto pelo aleatório do moderno iPod, que descarrega as músicas com a imparcialidade fria das máquinas.
Optei pelo cantante, que tão depressa emitia a alegria dos acordes, como a melancolia das baladas que nos fazem sorrir e fixar o traço contínuo do asfalto.
Pequenas luzes intermitentes brilham lá no alto.
Para onde irão aqueles aviões? De onde vêm? Quem levarão lá dentro?
Consigo imaginar o emigrante que vai tentar a sua sorte, a sobrinha que passa férias com a tia do Brasil, o chinês que negoceia fogo-de-artifício, a modelo contratada para uma festa nas arábias, o padre que vai em missão para um qualquer lugar remoto, a madame que compra tudo em Paris, ou até o sobrinho-neto que vai ao funeral da tia-avó.
Quantos milhares de vidas se cruzam e entrecruzam, por encruzilhadas paralelas, e muitas vezes fotocópias umas das outras? Neste preciso segundo que escrevo esta frase e que vocês a lêem, alguém torce um pé, alguém come um bolo, alguém rebola na relva, alguém disserta na teoria do fole, alguém finge que nada acontece no outro lado do mundo.
Afinal não estamos sós!
Por isso é tão difícil inovar. Porque alguém já pensou nisto antes, ou melhor, está a pensar neste momento!
Somos tantos a pensar que até me espanta como há pessoas que conseguem inovar sem renovar, romper com o pensamento circular e fechado, permitindo-se ver mais além. São com certeza elementos com uma visão não redutora ao nível da terra. Imaginar-se ave e elevar o ponto de visão da terra para o céu como se a sobrevoássemos, é um exercício que todos podemos e devemos fazer. Temos mais amplitude, maior visão global e uma maior previsão dos movimentos.
É como ver um jogo de futebol da linha lateral ou vê-lo do terceiro anel. No primeiro somos próximos, mas redutores e com pouca abrangência. Nos segundos, temos uma noção exacta e um filme corrido daquilo que discorre na fita da vida.
Este é por isso um grande exercício a praticar em todos os momentos. Não focalizamos o problema ou obstáculo, mas vemos para lá da cerca e distribuímos a perspectiva, podendo até nos comparar a outros na mesma situação, e que se situem nas nossas antípodas geográficas.
Passei agora a portagem, e o revisor trouxe-me de volta aos meus pensamentos mecanizados.
Parar, ticket, pagar, receber cartão de volta, prendê-lo entre dentes, meter primeira, acelerar e entrar de novo na via do pensamento distractivo.
Este caminho asfaltado tem uma meta e um alcance definido, mas o nosso próprio caminho tem tantas vicissitudes e interlúdios que dependem bastas vezes de pequenos pormenores. Se eu me atrasar três segundos posso não apanhar o comboio daquela paixão, mas posso no mesmo timing embarcar num amor infeliz. O empenho e a vontade têm marcante preponderância no nosso rumo, mas o acaso das coisas troca as linhas tal como nos caminhos-de-ferro as mudanças de agulhas definem os apeadeiros e as estações de chegada.
No outro dia vinha a atravessar a rua e parei a olhar para trás, porque senti que alguém me chamava em surdina. Nessa fracção de tempo retomei a marcha e não fui apanhado por um Toyota, porque aquela voz me segurou um milésimo de segundo. Sorte? Adivinhança? Premonição? Ou apenas Destino?
Quem sabe...?
Entrei na recta final da minha viagem programada! Esta discorreu sem percalços e sem contratempos de percurso, graças também aos acasos dos outros caminhos que não se impuseram ao meu.
Estacionei, puxei o travão de mão, desliguei o motor e fiquei uns segundos recostado, a imaginar de como seria a vida em amarelo!
Chego à conclusão que ela é maravilhosa, às cores e ao vivo...
quinta-feira, 17 de maio de 2012
Ops!
A azáfama da urgência era caótica desde que tinham fechado
as extensões de saúde dos arredores, e todos os dias toneladas de doentes eram
despejados à pazada na porta daquela que
se dizia a maior, e melhor urgência do país.
Uma pequena entrada dava acesso a um serviço cheio de remendos e acrescentos, com planta de construção datada dos anos cinquenta, e claramente fora de toda a
racionalidade de eficácia e eficiência da era moderna.
Médicos, enfermeiros e
auxiliares eram sempre poucos, as horas de espera ao atendimento revelavam as
dificuldades, e serviam de prova de resistência aos doentes que menos se
queixavam na hora da inscrição.
Se na primeira linha de abordagem, as tosses e febrículas se misturavam com as dores vagas e os entorses; no
internamento, as tromboses, os enfartes e as hemorragias, eram vigiados e
tratados com maior afinco e vigilância.
Às cinco da tarde, dava entrada
uma senhora trazida pelos bombeiros da Musgueira, aparentando uns sessenta e
poucos anos de idade sofridos, já muito difíceis de adivinhar na cor negra de pele e nos sulcos
profundos das rugas da face. A sua atitude era calma, o seu discurso era
imperceptível e ficava fixamente a olhar
para nós respondendo guturejos
cantados.
Foi inscrita com os documentos que aportava, e depois de
muita auscultação e palpação, a D. Adelaide passou a ser conhecida pela maca doze, que
aguardava o raio X à cabeça.
Parecia responder ao nome, mas logo vinha um chorrilho de
palavras esgrouviadas que até nos pareciam insultar, não fosse a entoação suave e atitude serena.
De uma das portas semicerrada, ouvimos o auxiliar de acção médica aos gritos do fundo do
corredor:
-"Ó Juvenal! Traz daí a velha da maca 12 prà TAC!"
E assim foi a Dona Adelaide, que mirrava na cama de
vergonha cada vez que lhe perguntavam o que quer que fosse.
O exame não deu nada e por isso
decidiram interná-la para observação e vigilância, com o pomposo rótulo de acidente
vascular cerebral isquémico. Ficou num corredor, a seguir
à maca 11 com o carimbo de
hemorragia digestiva, e depois da maca 15 com a senha de enfarte do miocárdio. Todos pareciam comunicar menos a D.Adelaide, que
diziam ter afasia e lhe custava a entender-se e explicar-se como deve de ser.
Aquelas noites eram frias, e no corredor sentia-se a brisa
que entrava cada vez que as portas automáticas se abriam para engolir
mais uma série de candidatos a doente,
triados de pulseiras verde, amarela ou laranja, conforme a seriedade da
enfermidade. Com o sono entrecortado, lá descansaram todos um
bocadinho, que o cansaço aperta naquelas horas,
estejamos mais ou menos doentes.
No turno da manhã, grandes jarros de metal
amolgados pelo uso do combate diário, distribuíam o leite em canecas de loiça
barata e tosca, enquanto as carcaças com manteiga eram
repartidas pelos estropiados auto-suficientes, segundo as regras de higiene da
teoria do fole.
Os serviços seguiam-se uns aos outros
por turnos de oito horas cada um, e tanto os médicos
como os enfermeiros registavam nas suas avaliações
e observações consecutivas da D.Adelaide,
coisas como: "doente sem défices motores",
"afasia de compreensão e expressão", "duvidoso desvio da comissura labial",
desconhecendo o povo que tínhamos uma
"comissura" no corpo e ainda para mais na boca!
No dia seguinte entrei ao serviço, e depois de dar uma volta aos doentes debrucei-me sobre
qual seria o destino a dar à D.Adelaide. Uma senhora
daquela idade, apesar de se mexer sem problemas, iria ter com certeza muitos handicaps a ultrapassar nas suas
actividades de vida diária. Temos de convocar a família! Pensei eu.
Como fazia o turno da tarde que coincidia com o horário das visitas, assim que vi alguém ao pé da maca 12, lancei a mira e
fui. Era uma jovem de raça negra, alta e esguia, com traços finos e delicados,
extremamente bem vestida, que facilmente passava por princesa de uma qualquer
tribo africana.
Com muito meu espanto, as duas pareciam falar animadamente,
embora não me conseguisse aperceber do
que é que falavam, porque a confusão das visitas era tal, que não
permitia ouvir com clareza a aquela distância. Curioso como pelo menos
gesticulavam em consonância, parecendo até que estavam em amena cavaqueira...
- Boa tarde!
- Boa tarde, Senhor
doutor! Disse, rasgando um sorriso nuns dentes perfeitamente alinhados como
albas teclas de um piano sedutor!
- A senhora é
familiar da D.Adelaide?-Gaguejei,
perante o impacto!
- Temo dizer-lhe que
a sua avó não
consegue falar nem entender o que diz porque teve uma trombose no cérebro!
Mas neste momento está estável...
- Como diz doutor!!?-
disse levantando o tom de voz e desvanecendo aqueles marfins alinhados.
- Pois...mas pelo
menos anda sozinha e faz a higiene por si própria.. Retorqui, tentando fazer
reaparecer aquele sorriso de novela.
- Sabe que por vezes
estas coisas...
- Mas que disparate
vem a ser este doutor? A minha avó é
cabo-verdiana e chegou a Lisboa há uma semana! Ela
Só
fala e Só percebe
crioulo....!!!!!!! E fala e entende tudo como antes....
Nesse momento percebi que a nossa medicina tinha sido
fintada pelo dialecto africano .....
PS: história real de uma qualquer urgência real deste real país.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Tique-Tique
Eram três da tarde de um dia solarengo e ameno, naquela cidade que vivia dos arrufos das nortadas que a fustigavam o ano inteiro.
O posto de correios tinha acabado de abrir, e
a nova remessa da teoria do fole vinha agora em fascículos, pronta a ser
distribuída pela rede de entrega juntamente com as pensões de reforma e as
multas de excesso de velocidade.
Alcinda trabalhava naquele posto de correios
já fazia mais de 40 anos. Na altura iniciou-se como telegrafista, encriptando e
enviando milhares de mensagens morse por esse mundo fora. Viu os selos darem
lugar à trabalheira das encomendas postais, a venda automática de estampilhas
foi uma novidade, o serviço de entregas urgentes um avanço da sociedade
moderna, mas nem a vanguardista internet
conseguiu destronar o carinho das pessoas pelos "Correios". Talvez
porque as verdadeiras cartas de amor só se escrevam em papel...
Preparava-se para atender uma cliente,
quando entrou no posto o Zeca da latoaria. Vinha com o seu filho que se
encontrava emigrado nas Américas, e que lhe tinha vindo fazer uma visita.
-Olá Alcinda! Ainda não mudaste as cuecas
amarelas desde ontem, hãm?!
-Oh! Que disparate Zeca! Enquanto corava da
cor do cavalinho dos correios.
-Olha, apresento-te o meu rebento mais velho!
Evanildo Johnson (em homenagem ao seu champô
preferido), era um rapaz para os seus 28 anos, bem-parecido e educado, que
prontamente lhe estendeu a mão e se curvou numa pequena vénia em sinal de
deferência e respeito.
Estiveram um bocado a conversar os três em
temas amenos e fúteis, quando de repente Evanildo estica e encolhe os braços
numa dança qualquer, tão esquisita quanto inesperada, continuando a conversação
como se nada tivesse acontecido. E este até nem foi o gesto mais inusitado.
Sim, porque Evanildo de cada vez que acabava uma frase tinha como tique, dar-se
uma sonora palmada na nádega esquerda ao mesmo tempo que arrufava um som rouco
do nariz, como um leitão em proximidade da Bairrada.
Mas como Zeca nem pestanejou, Alcinda também
não deu parte fraca, e continuou disfarçadamente o entabulamento da conversa
rematando com um simples mas eficaz: "Bom, vou trabalhar mais um bocadinho
senão as cartas não abalam!".
Lá se despediram com um beijo de cada lado e
mais uma auto-pancadinha de nádega de Evanildo, saindo este com o pai enquanto
vociferava inapropriadamente, aos risos, do vernáculo mais potente que Alcinda
já tinha escutado e que teria feito com certeza até empalidecer a batina do
Sr.Prior.
Ficou-se um tempo a pensar, que personagem
mais estranha este luso-americano. Os gauleses acham que os romanos são doídos,
mas este América não se fica atrás!
Já era hora de fechar o estabelecimento, e
apressou-se a virar o cartaz de "fechado", para que mais ninguém lhe
acenasse a querer enviar nem que fosse uma mula embrulhada em tafetá de oiro e
popelina de seda via postal.
Saiu a matutar naquele bizarro encontro! Um
rapaz tão bem posto e parecido, de discurso tão interessante, mas que depois
estragava tudo com trejeitos, impulsos e calão repentino, era cousa ou do demo
ou de muito circuito cruzado...o que vale é que hoje já ninguém é queimado na
fogueira, senão este era logo atirado...Também havia a hipótese de muita droga
naquelas veias, mas o jovem não tinha nada aspecto de snifador de linhas...
Ao virar da esquina, qual a sua surpresa ao
ver Evanildo ajudando um invisual a atravessar a rua, num comportamento e
atitude cívica exemplares! Passos curtos e respeitosos, tendo sempre em atenção
as pedras da calçada, guiando o ceguinho em segurança até a outra margem. Mal
se despediu, deu meia volta e contorceu-se todo num espasmo só, abrindo muito a
boca para rosnar numa gargalha única, três impropérios de rajada para a parede.
Impropérios esses, que aludiam de forma jocosa a apêndices anatómicos diversos,
que excluíam obviamente o nariz e as orelhas. E o espantoso é que no segundo
imediatamente seguinte, Evanildo transfigurava-se e cedia passagem de uma forma
elegante e cavalheiresca a uma donzela que se lhe cruzava nesse instante. Que
raio...!
Decidiu então segui-lo pelas ruas e ruelas da
cidade, pensando que mistério entronava este personagem das Américas!
Evanildo passeava em ritmo ligeiro, ora
socando o ar no melhor estilo boxeur,
ora gesticulando sozinho em fracções de segundos mirabolantes! Perseguiu-o
durante três quartos de hora em reviravoltas de percurso erráticas, tentando
adivinhar onde iriam parar aqueles rasgos de aparente insanidade.
Nisto, quando vagueavam os dois a meia
distância pela avenida, uma ambulância fez uma travagem repentina, guinchando os pneus e
largando uma nuvem de fumo de borracha que empestou o ar. Dela saíram dois
enfermeiros corpulentos, de barba russa e bata branca imaculada. Lançaram-se a
Evanildo como se não houvesse amanhã (neste caso sábado...), imobilizaram-no,
meteram-lhe um colete-de-forças, e enquanto o pobre desgraçado esperneava e
gritava "Aqui del rey, Aqui del rey!" meteram-no na ambulância e
chiaram novamente os pneus com a mesma fumarada de antes, desaparecendo no
asfalto que estava livre e desimpedido.
Alcinda ainda conseguiu ver as letras
pequeninas na ambulância: "Hospital Psiquiátrico de Lorvão"...
Desde então, nunca mais viu Evanildo...
Síndrome de Gilles de La Tourette: “é uma patologia rara de origem neurológica que se manifesta por tiques motores incontroláveis e inadequados ou vocalizações repetidas e fora do contexto. Os tiques podem ser palavrões ditos repetidamente em voz alta fora do contexto, movimentos bruscos e estranhos, caretas, movimentos espásmicos, fazer sons de animais, entre outros gestos.”
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
"A Voz"
A contracção do diafragma dizem que é o mais importante! Cria uma pressão negativa dentro da caixa, enchem-se os alvéolos de ar puro, para passivamente e com nova ajuda do diafragma ser o mesmo ar de moléculas a sair, trespassando as cordas vocais compelido em agudos e graves, para por fim escapulir pelas coanas e soar!
Muitas formas há de expressar a
voz e isso fica bem claro no nosso idioma: falar, palrar, vociferar, gritar,
cantar, guturejar, e até praguejar...ficando impressas pelo povo como ele muito
bem o sabe: “voz de cana rachada”; “voz de bagaço”; “vozinha aflautada”; “voz
de trovão”; “vozinha de anjo”, entre outras... Mas todas utilizam o mesmo
mecanismo fisiológico, sendo claro distinguir o falar do cantar. Se há vozes
perfeitas para a locução, devem-se na maioria dos casos ao timbre, à forma de
articular as palavras, à dicção, à ênfase impressa que confere o balanço à
frase.
As locuções podem ser graves,
abafadas, transmitindo solenidade, rigor e respeito. Podem ser num ritmo
pausado e calmo, dando a sensação de discurso congregador e irrepreensivelmente
estudado. E até podem ser mecanizadas e secas, como se calhar se pretende para
preencher um lugar em informação de rádio ou televisão. Mas as minhas
preferidas eram as de Alice Cruz, antiga voz
off da RTP, cujas peças transmitiam sempre uma tonalidade modal e constante
que não interferia com os conteúdos visuais dos programas, mas ao mesmo tempo com
pequenas harmoniosas inflexões de voz que destacavam os clímaxes específicos do
galope do documentário. Inigualável!
Insuperável era também Ana
Zanatti. Sou sempre invadido por uma serena calma quando os silêncios são ocupados
por esta senhora. Todo e qualquer relato me parece um flutuar de sons impecavelmente
melodiosos que me transporta visualmente para os locais e acção relatados.
E impossível seria aqui não
recordar as vozes memoráveis de Raul Durão, Luís Pereira de Sousa, Carlos Cruz,
entre outros. São vozes que estão no nosso imaginário, e que assim que as
ouvimos as reconhecemos pelas suas características únicas e sonoramente
familiares.
Mas os mistérios da voz são
imensos, com vozes tecnicamente perfeitas, palatos altos, diafragmas treinados,
rinofarínges límpidas e ressonantes, e há até quem puxe pela rouquidão para
marcar a sua linha. Estas características são todas exploradas nas suas mais
variadas vertentes, no expoente máximo do usofruto e utilização da voz, que é o
canto.
Isto porque no canto, a
exploração e variação de géneros e estilos, mais para além das influências de
outros factores externos, como a imagem, a postura, os arranjos musicais, e até
o efeito psicológico do exemplo de figura mediática, faz com que
individualmente tenhamos vozes interpretativas muitíssimo diferentes umas das
outras.
Uma coisa é certa e comum. Para
que os cantores tenham sucesso e consigam atingir os seus ouvintes e
seguidores, não basta possuir uma voz divinal ou cantar tonalmente sem
desafinações. Têm de saber canalizar a emoção da música pela voz, e de a
interpretarem, dando-lhe um corpo e uma consistência que prenda o nosso ouvido.
Um exemplo disso é esta
interpretação de Jennifer Holliday, no musical americano Dreamgirls: http://www.youtube.com/watch?v=kC_u_q-iND0&feature=related (do minuto 3:28s até 8:02s). Esta performance
é para mim o exemplo máximo daquilo que deve ser uma materialização de um
trecho. Força alternando com subtileza, interpretação, entrega à música, e
sobretudo uma emoção transmitida por doses perfeitas, com arranques que se vão
libertando ora devagar ora com ímpetos de arrebato inigualáveis. Ímpar!
Poderia citar inúmeros exemplos
de vozes marcantes, mas pego nos exemplos de Amália Rodrigues e Bjork. Não têm
nada em comum, mas possuem um elo que as une e lhes confere um lugar no meu top. Sem serem possuidoras de uma voz
perfeita, ambas riem, choram, vivem, dançam e exprimem-se no canto com um
sentimento de tal modo intenso, que quando cantam tudo o que dizem se agiganta
de forma imensurável, tocando-nos profundo na essência. Mesmo quem não percebe
a letra fica enganchado naqueles sons e naquela presença.
O mesmo se passa com aquele
apelidado de “The voice”. Independentemente da época e dos seus meandros
artísticos, nomeadamente a suposta ligação à máfia italiana, esta foi sem
dúvida a mais particular voz masculina até hoje. Sinatra, é ainda hoje uma
referência como cantor e intérprete, porque o seu registo vocal é inimitável e
singular. Tantos outros haveria para escolher com projectos na mesma linha
(Harry Connick Junior; Michael Bublé; Robbie Williams), que seria preciso
aplicar uma teoria do fole para descrevermos todos os novos talentos musicais...
Mas como gostos não se discutem,
mas sim partilham-se, aqui fica esta voz em jeito de surdina...
Abraços afinados
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Ser Ilhéu
Podia ter vindo do Sudão, da Mauritânia, ou até da longínqua Birmânia, mas o que é certo, é que nasci no meio do Atlântico. Num punhado de terra rodeada por um imenso mar sem fim. O que à partida poderia ser por alguns considerado um azar do destino, é para mim motivo de orgulho e de honra. O sítio onde pertencemos, onde nos criamos, onde nos refugiamos sempre que algo se nos apoquenta, é o lugar de nascença. Deve ser das poucas coisas que não podemos escolher, que nos é imposto e que nos carimba como um selo de origem!Nascer numa ilha é um símbolo de pertença muito grande, que se impregna de uma forma muito vincada e pessoal. As ilhas são locais de personalidades únicas, que ao se expressarem, canalizam muitas vezes para sentimentos e emoções fortes, arrebates de criação de um momento singular. Não diria que a nossa alma seja maior, mas tem maior cabimento, mais tolerância, maior capacidade de considerar e balizar, sem rede de contenção.
Ao mesmo tempo, o nosso campo tem mais amplitude de visão, tem um maior discernimento nas vidas de relação, com gestos e contra gestos de são convívio, com aqueles de que gostamos e consideramos. Há sempre uma surpresa, um encanto, um desencanto que surge e se transforma do nada, num todo de magia simplista como a vida deve ser. Como se de um fundo poço se tratasse. Onde nunca ninguém consegue ver a água, mas que se nele atirar um balde, puxa sempre um afecto ou uma essência verdadeira e cristalina como a própria água.
Ver o mar todos os dias e para onde quer que se olhe, sentir que sempre está em calma pois o horizonte é sempre sereno, e poder imaginar que para lá do além longe se pode mandar o pensamento, aprende-se. E aprende-se também com esta gente e com este povo que tão bastas vezes a vida lhe decepou. Sem heróis conhecidos de fama, desbravou a ilha e traçou-lhe trilhos insistentes naquela rocha dura, plantou e domou-lhe as encostas com os socalcos, fez-se ao mar para que este lhe desse sustento, e desafiou-o vezes sem conta, nem que fosse para lhe mostrar quem ali reina. O mar tem sempre esta força e este poderio imenso como ele próprio sabe, sabendo que o podemos cavalgar mas que nunca o domaremos. Ao mesmo tempo dá-nos esta calma e esta paz de saber que somos simplesmente assim. Tu estás aí e nós colocamo-nos no nosso lugar, humildemente te reconhecemos como supremo. Nas ilhas acorda-se de manhã com a visão omnipotente do mar, veículo da nossa possível fuga, mas ao mesmo tempo barreira plácida para a nossa evasão. É por isto que sabemos onde se colocam os nossos limites. Por um lado a plenitude da linha fina do horizonte, e por outro a esmagadora montanha que nos sombreia e nos reduz à nossa existência. Sabemos que estamos aqui provisoriamente.
Curiosamente, quanto mais dela nos afastamos, mais dela sentimos a falta. É um ioiô de pertença fugidia ao que nos foi impresso. Não é à toa que os emigrantes são os mais acérrimos defensores daquilo que são as suas raízes. As Associações e comunidades de emigrantes da ilha, são sempre dignas defensoras da espetada à madeirense, do milho frito, da batata-doce, da carne de vinha d´alhos, do quarto de pão com molho, das lapas grelhadas, do atum, do peixe-espada, do bolo do caco, do pudim de maracujá, do Boal, do Sercial, do Malvazia, do Verdelho, da festa de Nossa Srª do Monte, dos arraiais, do fogo de artifício....de tantas e tantas coisas que materialmente nos conferem uma identidade única, e que espiritualmente nos globalizam cá dentro.
É um fascínio de mentalidades esta ilha! Fora dela consigo ver uma identidade comum, um traço de pensamento que responde com uma pergunta em vez de uma resposta.
P:- “Túlio! Vais ir más êlê até ao cuáis?”
R:-“Uái! Pra que quéres sabêr isse...?”
E até os malucos da ilha são mais uniformes na sua linha de loucura. Será pela própria contenção do espaço, será pela contenção social mais apertada, ou será pela limitação geográfica que também impõe barreiras aos devaneios da loucura? Não faço ideia, mas muitas vezes até a própria insanidade se infiltra no seio da normalidade, fazendo uma paleta de diferentes personalidades que em outro contexto ficariam internadas no “Trapiche”.
Pode não haver muitas intimidades, mas quando um descobre um seu conterrâneo, logo se estabelece um canal de comunicação, uma linha de pensamento própria, uma cumplicidade inerente à vivência comum do ilhéu, que nos torna muito mais unidos sem necessidade de verbalizar. A poupança de palavras também é genuína, mas canaliza-se por vezes sob outras formas para o mesmo conteúdo. A forma de escrita como esta teoria do fole por exemplo...Aí o aforro dá asas à imaginação...
Viva a Madeira e suas gentes
terça-feira, 18 de maio de 2010
Nós
A vida até agora tem sido fácil e maneirinha, gerida pelos alternados intempestuosos ritmos dum percurso de saudável convívio, dos altos e baixos, muitos deles intensos, que acabam por moldar os nossos géneros.Ainda ontem te vi e parece que não existias, que não eras nada nem ninguém, que o mundo te podia engolir, e que ali estava eu para te proteger e abraçar. Só nos olhávamos e nada dizíamos para nos entender, como se adivinhássemos para além da retina, como se ouvindo com os cinco sentidos fosse algo de sempre. O bater uníssono dos corações nos acalmava.
O tempo passa em câmara lenta, com uma cadência certa e sem volta a atrás, mas felizmente sem percalços, e com momentos irrepetíveis que se fixam indeléveis como palavras intemporais. Acompanho-te a par e passo para que não te atrases, e acertando-te muitas vezes esse mesmo passo quando ele se confunde..
O tempo pouco vai passando, e sorrio profundamente quando te miro entretido, quando me abraças, quando me falas e me pedes algo. Não consigo resistir e apetece-me proteger-te sempre, apetece-me dizer que ninguém te fará mal, que serás feliz se depender de mim.
Às vezes chego a casa tão cansado que não me apetece nem comer, mas assim que tu me abres o teu sorriso ao mesmo tempo que os braços para me abraçar, continuo a te acompanhar até que o sono nos vença.
Nem consigo imaginar que algo te possa acontecer, que sofras sozinho sem a minha ajuda, que te magoem e eu não esteja para te defender, ou pior ainda, que desapareças para sempre sem dizer adeus, ou que eu desapareça e tenhas de seguir rumo sozinho.
Neste pouco tempo que já é nosso e que ninguém nos tira, penso sempre no futuro e como será. Sempre de cores radiantes, de energia positiva, de bem estar e razão, de trabalho e sucesso, mas acima de tudo de paz plena e serenidade alcançada.
Com todas as incógnitas que ainda faltam preencher, com todos os desígnios por adivinhar, e independentemente das hiperbolizações que possamos sonhar por ti, o desejo é só um.
Que sejas mesmo Feliz a ser, e a fazer aquilo que mais gostas!
Um grande beijinho de Parabéns
Deste que te quer muito
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
Porque ainda é Natal!
A festa começa no primeiro de Dezembro, quando as luzinhas dão cor e brilho à cidade, e o cheiro do Natal chega a todos os cantinhos do Funchal. Aqui, a fobia da época não se mede pelas montras vistosas, nem pela profusão de rechonchudos pais Natal, nem pelo número de gadgets inúteis postos à venda, nem sequer pela idiotice de ter um hipopótamo como figura Natalícia.O sentido é o da verdadeira festa da família, dos amigos, do convívio, da partilha, da solidariedade, destes e daqueles muitas vezes olvidados, tudo em redor da celebração do nascimento do Menino Jesus. As missas do parto, que se iniciam nove dias antes do Natal, e que se celebram às seis da manhã, são a prova de que o religioso se mistura com o pagão. Ainda nos acordam temprano, os grupos de populares que munidos de instrumentos vários como o acordeão, a braguinha, a rabeca, a harmónica, o rajão, as castanholas, o reco-reco, as pinhas, a gaita, o brinquinho, nos brindam à saída da missa, celebrando o momento da Festa do Menino.
Os preparativos começam cedo, e recordo com alegria o dia em que subíamos a montanha para ir buscar o pinheiro de Natal! O Sr.Engenheiro do governo regional, disponibilizava sempre uns salvo-condutos para que, chegados ao posto de controlo florestal do Poiso, com um frio de rachar, o vigia se embrenhasse na floresta, vindo de lá com um frondoso abeto que recebia em casa os mais variados comentários: “É um bocado esgalhado!”; “Este ano saiu um pedacinho desconsolado!”;”Ah, este é muito maneirinho!”. O pote de mármore servia de recipiente, as rochas entalavam e fixavam o tronco na base impedindo-o de tombar, e sob o comando do meu Pai, púnhamos a gambiarra dispersa uniformemente, as bolas maiores na base e as mais pequenas no topo, enquanto a estrela coroava o nosso esforço no final, brilhando na pontinha daquela árvore, que parecia o maior pinheiro do mundo, e o nosso orgulho do Natal.
Mas este orgulho não destronava outro mais importante: a lapinha! A do meu avô ocupava uma parede inteira de uma das divisões da casa, mas a nossa era mais comedida. Passávamos horas a construir casinhas aproveitando o cartão duro das embalagens de medicamentos, a recolher o musgo do cemitério inglês, e a preparar a plantação do trigo nos pequenos cântaros para que as searas despontassem a embelezar o cenário. Neste teatro, a gambiarra branca foi destituída da sua função, a partir do momento em que quase me ia matando de electrocussão, deixando impressas umas marcas de queimadura nas mãos, que ainda hoje persistem.
A primeira coisa a definir era o local da gruta do Menino Jesus, e depois era só encaixar os Reis Magos, o Arcanjo, a aldeia, o rio de algodão, e todos os pastorinhos, casinhas, ovelhinhas e todas as “inhas” do cenário. A maioria das figuras já encarnava uma personagem conhecida e caricaturada em profundas gargalhadas: “Vamos pôr o Sr.João da barraca, aqui ao lado do bar!”; “Ó homem, põe o Padre Rafael ao pé da Igreja, e tira-o da tasca!”, entre outras que aqui não posso revelar...
O cheiro a bolos, margaridas, broas de mel, beijinhos, sonhos, e outras iguarias muito conventuais e pouco convencionais, era uma constante, e todos os dias alguém aparecia para uma visita de Natal, havendo logo lugar a jantar ou almoço. Muitos reconhecidos doentes vinham entregar uma prenda ao senhor doutor, e o peru por vezes era tão grande que tinha de ir a assar no forno da padaria, três números abaixo na mesma rua.
O movimento na cidade era ensurdecedor, e as gentes do campo aproximavam-se da cidade para as visitas de família, e para as compras de última hora. Dão-se muitas lembranças e poucas prendas, porque afinal o Natal é isso mesmo, lembrar-nos de todos sem excepção, não esquecendo nunca as tias, as primas, as madrinhas, e afins! Adorava aquele dia 24, quando a minha mãe enchia diferentes cestos de anonas, peras abacate, bananas, bolos de mel, doces, uma garrafa de uísque, junto com um que outro embrulho, e os homens da casa saíam para distribuir o Natal pela prima Guiomar, Madrinha Natália e Madrinha Henriqueta (que ainda hoje me lembro de ter uma barba rasteirinha..); as primas Lurdes e Cecília (que tinham um presépio com a figura de um Padre a apalpar uma mulher da vida..); e já no fim do recorrido, as eternas meninas do Quebra-Costas: a Igia e a Amélia, cuja cozinha parecia de brinquedo, e onde tudo era pequenino e mimoso. Em todos estes apeadeiros, acontecia sempre o ritual de visitar a lapinha erguida no mesmo local e com o mesmo arranjo, de comer aqueles doces caseiros divinais, de empanturrar-nos com o bolo-de-mel delicioso, e provar os diferentes licores de maracujá, cereja ou frutos secos, que nos iam empapando o sangue na mesma proporção que nos aqueciam os corações. Às minhas Tias da Ribeira Brava era reservado outro dia, com uma cesta reforçada, e quase sempre uns sapatos ou uma saia lhes calhava na rifa, sendo certo e sabido que chegar na hora da missa, era ter que esperar que esta acabasse, e que as bilhardices do adro se actualizassem.
O Natal era isto e muito mais. Um sem-fim de recordações, de vivências, de cores, de cheiros, de aromas, de experiências, de eternas e repetidas fotografias da vida. Lembro e relembro com alegria as tardes do circo, os carrinhos de choque do campo da barca, o algodão doce da feira, os presentes do consultório, as noites do mercado, a missa do galo ouvida sempre no adro, a excitação das entregas do pai Natal, as luzes grandes e coloridas nas árvores, o calhamaço do Diário de Notícias da Madeira no dia 25, as flores “manhãs de páscoa”, as bombas de estalo que eram a banda sonora da época: ratinhos, beijinhos, de garrafa, de barril..; e até os jogos do Marítimo que nessa altura pareciam diferentes, fazendo-se a festa quer houvesse vitória ou derrota.
Milhares de outras simples recordações estão armazenadas em mim, indo e vindo como flashes de uma época, que como outra não há!
É esta a magia do Natal madeirense, único e ímpar, global e acolhedor, mas sobretudo muito familiar, imutável nas suas tradições e festividades. Se me perguntarem o que peço para esta época, respondo-vos:
- Um Natal como o meu!
- Um Natal como o meu!
E porque ainda é Natal na Teoria do Fole: Boas Festas!
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